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Bruna da Guarda
Gosto bastante de ler sobre história de lugares, principalmente de locais onde estou inserida. Ler esse livro foi bom para ter um leve panorama do cenário musical cultural de Conquista e região. "Vitória da Conquista tem muitas histórias a contar, e o primeiro passo para a valorização é o registro". Eu vejo esse livro como um documento, porque ele literalmente documenta o desenvolvimento do cenário musical, do rock e das suas variações, em VCA. A edição que li está precisando de algumas revisões textuais, mas nada que atrapalhe a leitura. Vou fazer esse comentário um pouquinho extenso porque já vai me ajudar na apresentação de um trabalho.

A autora deixa evidente no livro as dificuldades de manter e compor um trabalho, com obstáculos como achar local para ensaio, integrantes, investir em equipamentos e muito mais. Apesar desse contexto, muitas bandas de rock surgiram nos anos 2000 em Vitória da Conquista, porém como não tinham condições para lançar trabalhos autorais, trabalhavam com covers. Na década seguinte, de 2010 a 2015, o desenvolvimento da tecnologia já facilitou o processo de produção autoral, assim muitas bandas conseguiam produzir sem sair de casa, utilizando seu próprio computador para gravar e editar seu trabalho. Algumas bandas marcantes do cenário conquistense foram citadas pela autora, como 1 Em Pé 2 Alados, Cama de Jornal, Ardefeto, Liatris, In Mundos.

Raquel Dantas cita os sucessos do rock conquistense e das variações do estilo, como o punk/hardcore, death e doom metal, blues, rockabilly, rock alternativo e grunge. No punk a banda Cama de Jornal se destacou não só no cenário municipal, como nacionalmente. A banda que surgiu em 2001 se destaca com letras autorais e de relevância social, como nas músicas: Horda Punk, Naquele dia, etc. Vale ressaltar que a banda existe até hoje, e a sua estabilidade serviu de inspiração para o surgimento de outras bandas, como Princípio Ativo e Dona Iracema.

No death e doom metal, a banda Inside Hatred, que surgiu em 2004, foi citada como exemplo, com suas músicas compostas na língua inglesa e com teor anticristão. Já no blues, a banda que surgiu em 2005, Café com Blues, foi citada como a única banda conquistense a ter participado em 2008 do Festival de Inverno Bahia (FIB), até então ? o livro foi publicado em 2017. No estilo rockabilly, que é uma mistura de rock com a palavra hillbilly ? palavra usada para se referir a música country americana ? a banda Ladrões de Vinil surgiu em 2006 na cidade de Vitória da Conquista, com inspirações no tempo da jovem guarda, como Roberto Carlos e Erasmo Carlos. No rock alternativo as bandas citadas foram Randômicos e Garboso, ambas criadas em 2009. No grunge algumas bandas se destacaram, como Abismos, Reason, Retilíneos, Mr. Gross e Stone Sheep, porém todas se desintegraram e alguns de seus integrantes formaram novos projetos, como a banda Social Freak que surgiu em 2008.

A autora também cita a importância de festivais e shows com bandas locais para valorizar a produção cultural da cidade. Mas destaca também que é importante haver uma mistura com bandas famosas e undergrounds com intuito de que as pessoas conheçam novos trabalhos. Alguns festivais que aconteceram em Vitória da Conquista foram muito importantes para alavancar algumas bandas, muitos deles já não existem mais, porém deixaram sua marca. Alguns festivais e shows citados foram: Point do Rock, Conquista Rock Festival, Festival Rock Cordel, Suíça Baiana, Acrock, Oktober Rock, Festival da Juventude e Festival de Inverno Bahia ? que inicialmente era um festival de rock, mas atualmente conta com uma diversificação de ritmos para alcançar um público maior, como axé, sertanejo, MPB, etc.


"Criou-se uma cultura errada onde acreditam que no Nordeste não existe metal ou rock que seja.. isso é muito errado' (Victor Elian, guitarrista da Inside Hatred, pg.55)

"Acredito que falta mesmo um pouco de interesse do resto do Brasil pelo Nordeste. O heavy metal alcançou lugares inóspitos mundo afora e não iria alcançar uma região como o Nordeste do Brasil? Infelizmente, essa ideia ficou muito bem difundida". (Escamium)

A Conquista do Rock
Raquel Dantas Silva
ISBN-13: 9788559963984
ISBN-10: 8559963987
Ano: 2017 / Páginas: 193
Idioma: português
Editora: Multifoco Música
⭐⭐⭐⭐

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Publicado originalmente em 26/05/2024, em Skoob.

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A história oral como instrumento de pesquisa em memória coletiva na cena rock de Vitória da Conquista-BA (capítulo 2)

Autores:
Plácido Oliveira Mendes
Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia / Memória Musical do Sudoeste da Bahia
Vitória da Conquista – Bahia

Felipe Eduardo Ferreira Marta
Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia / Universidade Estadual de Santa Cruz
Vitória da Conquista – Bahia

O presente estudo objetiva fundamentar o uso da história oral como instrumento prático de pesquisa e preservação da memória no contexto do estudo acerca da memória do rock autoral de Vitória da Conquista-BA entre 2000 e 2019, em andamento junto ao Programa de Pós-Graduação em Memória: Linguagem e Sociedade da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). A história oral não deve ser confundida com outras formas de captação do pensamento humano. Seu processo consiste em provocar, no entrevistado, o esforço da recordação, onde a memória é externada através da linguagem, capturada pelas ferramentas tecnológicas e convertida à linguagem escrita, tornando-a documento histórico representativo de uma abordagem do passado realizada no tempo presente. Cada uma das três categorias de história oral é capaz de evocar diferentes aspectos e contextos da memória. Dessa forma, constitui-se, a história oral, importante instrumento de combate ao esquecimento ou de justificação de determinados esquecimentos, revelando-se grande contribuição ao estudo de cenas musicais de rock independente.



Livro completo: A cultura em uma perspectiva multidisciplinar


Publicado em  07 de fevereiro de 2022.

A obra intitulada “A cultura em uma perspectiva multidisciplinar” tem como foco principal a discussão científica, a partir da integração entre conhecimentos que subjazem as produções escritas, em áreas distintas. O volume aborda de forma categorizada e interdisciplinar trabalhos que versem sobre a cultura, em contexto com a experiência e formação humana, entre outros temas materializados em pesquisas, relatos de casos e revisões que perpassam seus diferentes percursos, em diálogo com o contexto atual. 

Tem como objetivo central trazer à tona questões acerca da cultura, em uma perspectiva multidisciplinar, onde o ser humano é o elemento central de reflexões e ações que se delineiam, ao longo dos vários capítulos. Constitui-se assim, o resultado  de iniciativas individuais e coletivas, que abordam temas variados, que perpassam a geografia poética e os devaneios da floresta pandina boliviana, a preservação da memória do rock autoral; a relação da cultura do consumo com a degradação ambiental; o trabalho com as culturas lúdicas, no contexto da alfabetização, no ensino remoto; a Arquitetura e a Poesia Islâmica enquanto artes do mundo muçulmano, responsáveis pelo desenvolvimento de um tipo da música que constitui o Tarab.

Enfoca também, os atravessamentos, afetamentos e as desconstruções que emergem do convívio com estudantes indígenas na graduação e pós-graduação, bem como a falsa consciência, as deformações imaginárias e o cinismo, na ideologia do bolsonarismo; focaliza ainda, a superação de uma crise de paradigmas, enquanto estratégia organizada, por meio de um projeto político pedagógico, baseado na interculturalidade e interdisciplinaridade, para atingir uma autonomia e combater o conservadorismo estatal.

Não menos importante, a fim de que se compreenda as ressignificações e resistências inscritas nos modos de ser jovem, em territórios estigmatizados, traz narrativas e experiências de sujeitos artivistas, assim como, a contribuição, cooperação e a organização para o enfrentamento das desigualdades sociais e de gênero, a partir da articulação em redes de solidariedades, voltadas ao empoderamento feminino; apresenta também, a compreensão do ser humano como alguém participante do Deus encarnado, descrevendo ainda, o percurso de uma oficina de artes, em modo remoto, voltada para acadêmicos da educação profissional e tecnológica, no contexto de um projeto de ensino.

A obra “A cultura em uma perspectiva multidisciplinar” se materializa, pois, enquanto esforço e iniciativa da Atena Editora, na divulgação da produção científica de diferentes áreas, entre estas, a cultura, por meio de sua plataforma consolidada e confiável, oportunizando a socialização da temática, que se mostra enquanto valor intrínseco à vida humana. 

Heridan de Jesus Guterres Pavão Ferreira

Enquanto escrevia “Roberto Carlos em detalhes”, o escritor e pesquisador Paulo Cesar de Araújo não imaginava o périplo que enfrentaria após a publicação da obra, em 2006. Alvo de censura e uma disputa judicial polêmica, o livro saiu de circulação depois de um acordo entre o biografado e a editora Planeta, que, aconselhada pelo juiz, se comprometeu a não mais publicar, distribuir e comercializá-lo. Com a decisão, o autor assistiu a anos de pesquisa sobre a vida do ídolo brasileiro irem por água abaixo. Mas nem tudo estava perdido.

Em 2015, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou que biografias, mesmo sem autorização do biografado e de seus herdeiros, não podem ser proibidas. O tribunal reconheceu que exigir a chancela do retratado representa censura. Com isso, Araújo ganhou novo gás para se debruçar sobre a trajetória do “Rei”. O resultado da nova pesquisa chega agora às livrarias pela Record, com o título “Roberto Carlos outra vez”.

MEMÓRIAS - “Refiz aquele livro, acessei novamente todo o meu material de pesquisa e isso me permitiu fazer biografia mais ampla, em dois volumes. Tive acesso, por exemplo, a outras fontes e a livros de memórias publicados depois, como o da Wanderléa (“Foi assim”, 2017) e o do Erasmo Carlos (“Minha fama de mau”, de 2008).”

Paulo Cesar garante que a nova publicação é “melhor e mais completa”. O grande diferencial de “Roberto Carlos outra vez” é narrar a vida e a obra do Rei por meio das canções mais representativas de sua carreira. Elas dão título a cada um dos 50 capítulos distribuídos em 928 páginas.

“É difícil reescrever a mesma história, então decidi abordá-la por meio das músicas. Parto das canções e faço para cada uma delas pequenas biografias. Estou há cerca de quatro anos nesse trabalho, um verdadeiro quebra-cabeça. Foi um livro difícil de fazer, mas felizmente consegui encaixar todas as peças”, ele afirma.

Neste primeiro volume, o autor revela como nasceram e foram gravados os hits “Jesus Cristo”, “Sua estupidez”, “Quero que tudo vá pro inferno”, “É preciso saber viver”, “As curvas da estrada de Santos” e “Como é grande o meu amor por você”, entre outros.

O título do livro remete ao sucesso “Outra vez”, composto por Isolda Bourdot (1957-2018), indicando que também há espaço para as músicas em que Roberto foi somente intérprete – “Negro gato”, de Getúlio Côrtes; “Nossa canção”, de Luiz Ayrão; e “Madrasta”, valsa de Beto Ruschel e Renato Teixeira.

“A obra de Roberto Carlos é muito biográfica por si só. José Cavalcante, autor da biografia do Fernando Pessoa, diz que ele era um poeta sem imaginação porque estava sempre falando de si mesmo, de sua infância, da família, dos amigos e do que ele pensava. Digo que o Roberto é um compositor sem imaginação: fala dele mesmo, das mulheres dele e dos acontecimentos com ele. Então, toda sua obra tem caráter biográfico”, Paulo Cesar analisa.

Ao mesmo tempo, lembra o biografo, o astro escreve e canta de um jeito com o qual todo mundo se identifica. “São os dramas vividos pelas pessoas. O que é muito importante para entender o sucesso de Roberto é que ele é formado pelo brega, pela bossa nova e pelo rock. Essas referências fizeram dele artista único. Ele é a síntese desses três estilos e isso a gente observa ao ouvir as canções”, ressalta.

“Roberto Carlos outra vez” explica o contexto em que o artista se formou, como criou sua obra e como se tornou quem é. Detalha sua obscura fase dele como cantor de bossa nova e as bases que estabeleceu para o rock nacional com a Jovem Guarda.

A decisão de dividir o livro em dois volumes foi do editor Carlos Andreazza. No entanto, o período que o atual lançamento compreende – 1941 a 1970 – tem significado importante para a história do artista capixaba.

“Termino (o primeiro volume) no show dele no Canecão, a consagração definitiva de Roberto, o momento em que ganha prestígio e passa a ser acompanhado por um público mais atento e pela elite. É a partir dessa apresentação que vem a confirmação do sucesso dele. Lá estava um público que nunca tinha ido a um show do Roberto, por exemplo. De 1941 a 1970 ocorreu a formação e a consolidação do ídolo”, Paulo Cesar explica.

AMORES - O primeiro volume também analisa todos os discos lançados por Roberto no período, os filmes, o começo da amizade com o parceiro Erasmo Carlos, as aventuras e os amores.

O biógrafo dedicou atenção especial às pessoas que contribuíram para o sucesso do cantor, inclusive os músicos, então anônimos, pois os primeiros álbuns saíram sem ficha técnica.

“Esses músicos trouxeram muitas histórias dos bastidores das gravações e das decisões por trás das escolhas sonoras e estéticas que Roberto Carlos fez. Também consegui entrevistar atrizes dos filmes dele. O novo livro é o mais completo possível, trazendo um panorama detalhado dos personagens que orbitavam em torno dele durante diferentes períodos da carreira.”

O segundo volume de “Roberto Carlos outra vez”, previsto para final de 2022, acompanha o artista até seus 80 anos, completados em abril de 2021. “Será um volume um pouco menor. O primeiro é mais extenso porque é necessária certa contextualização. O próximo é mais linear, pois a carreira dele já está mais consolidada”, adianta. O formato será o mesmo, com 50 músicas ditando os caminhos da trajetória do Rei.

Questionado sobre a possibilidade de outra iniciativa de Roberto para barrar a publicação do novo livro, o autor é categórico: “Não, isso é página virada”. E acrescenta: “É um episódio infeliz da nossa história, mas a decisão do STF foi clara e cristalina. Ninguém está impedido de tentar, mas certamente não conseguirá. Quem quiser pode, sobre isso a gente não tem controle. Mas é algo que está resolvido, não é aquela coisa de fica a dúvida.” Em 2014, ele lançou “O réu e o rei”, contando a história da censura que sofreu.

Entre 1990 e 2005, período em que pesquisou e escreveu “Roberto Carlos em detalhes”, Paulo Cesar de Araújo tentou várias vezes, sem sucesso, entrevistar o Rei. Só esteve frente a frente ele na 20ª Vara do Forum Criminal da Barra Funda, em São Paulo, em 27 de abril de 2007, o dia da audiência de conciliação.

Depois disso, o cantor não tentou entrar em contato com o biógrafo. E decidiu contar sua história por meio de fontes oficiais. “O Roberto não deu entrevista para mim, mas deu para outros. Este é o trabalho do pesquisador: identificar o rastro que ele deixou. Fiz esse trabalho com a mesma disposição, sem contar com os personagens, tentando responder a perguntas que eu gostaria de fazer para ele.”

Ao contrário do que muita gente pode pensar, o imbróglio judicial não afetou o interesse do pesquisador por Roberto Carlos. Paulo Cesar afirma que seu grande objetivo é investigar a cultura e, assim, compreender aspectos da história do Brasil.

PROJETOS - Professor na PUC-Rio, o escritor se divide entre salas de aula na capital fluminense e a pesquisa sobre outros assuntos de seu interesse, como MPB, futebol e cinema. Terminado o segundo volume de “Roberto Carlos outra vez”, ele tem três ideias que pretende desenvolver nos próximos anos.

“Vou escrever um livro que será uma espécie de 'Eu não sou cachorro, não' da MPB”, explica, fazendo referência a seu trabalho publicado em 2002, no qual esmiuça a música brega.

“Também tenho uma grande pesquisa sobre futebol. Entrevistei muitos jogadores desde a década de 1930. Quero recuperar o material para transformar em livro. O terceiro é sobre cinema, os cinemas de rua e os filmes que passavam neles”, adianta. “Eles (os livros) já estão na minha cabeça. A questão agora é começar. Vou fazer o da MPB primeiro.”

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Publicado originalmente em 04/02/2022, em Conquista de Fato.

 


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Publicado originalmente em 30/11/2020, em A Tarde.



Diálogos Imaginários (Do livro)

- Pô, Nem, você agora só fala desse livro!
- Então, lancei, "Vagando por aí", uma autobiografia.
- Pois é, tu só fala disso agora, bicho!
- Tá a venda lá na loja Ponto do Disco, do meu amigo Dalmo Sérgio.
- Porra, fala de outra coisa!
- Tô vendendo ele pela internet também, via correio.
- Ah, vai se fuder!
- Ué?
- Fala outra coisa, porra!
- Tá bom, tô escrevendo outro livro.
- Ah, véio, na moral...
- É sério, pô.
- É sobre o que?
- Diálogos imaginários com pessoas como você!
- Ah, vai pra porra, Nem!

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Postado originalmente em 13/12/2019, por Nem Tosco Todo (Facebook).
Foto: Nem Tosco Todo
A história do rock conquistense nunca foi levada muito a sério, salvo em raríssimos momentos, isto é fato. Esse descaso parte de todos os lados: público, contratantes, pesquisadores e, por incrível que pareça, os próprios artistas, que, de uma maneira geral, não costumam se preocupar com profissionalismo ou mesmo com a importância cultural que carregam. Assim, muitas boas histórias simplesmente se perdem porque ninguém se preocupou em preservá-las. As exceções são raras.

Falando em raridade e exceções, em Conquista há esses casos. Um dos principais é o da banda punk Cama de Jornal. Totalmente underground, desde 2001 faz milagres que nem os adoradíssimos sertanejos conseguem: além de conquistar um público cativo, que canta o repertório do início ao fim do show, a banda conseguiu fazer turnês importantes e dividir o palco com ícones do gênero no Brasil, tendo o Cólera (SP) como exemplo mais óbvio. Foram seis álbuns (incluindo os ao vivo), DVDs, coletâneas, eventos e toda uma rede interligada para provar que o conceito de sucesso nunca esteve necessariamente ligado às referências comuns sobre a palavra.

À frente de tudo isso está o inquieto Emanuel Paulo Moraes Santos ou, simplesmente Nem, apelido que usa desde criança. Figura sempre presente no rock local, é um legítimo adepto do modo punk  de viver, sem dar muita bola para um dos artigos mais caros à sociedade conquistense: as aparências. Nem não se preocupa em parecer com nada: ele apenas é o que é. E assim, segue compondo suas canções, sempre carregadas de mensagens sinceras e registrando-as para a posteridade, inevitavelmente, escrevendo uma bela parte da nossa história. 

Seu mais recente projeto está pronto e à disposição: sua autobiografia Vagando Por Aí, produção independente, como deveria ser, fruto da máxima faça você mesmo (do it yourself - DIY, em inglês), que direcionou toda a sua obra. O livro, com 351 páginas foi escrito, principalmente, em homenagem à sua filha, Alice. Segundo o autor, para que ela soubesse, no futuro, quem realmente foi seu pai, por suas próprias palavras. O título remete à faixa homônima da Cama de Jornal, lançada em seu segundo álbum de estúdio, Comendo Lixo (2004). Por sinal, essa música não me saiu da cabeça um segundo enquanto viajava por suas páginas.

Seguindo a estilística já reconhecida por todos os fãs, a capa conta com uma foto típica do Nem vocalista: parado à frente do microfone, com uma latinha na mão, uma touca (ou um boné, na maioria das vezes), levantando as mãos num daqueles momentos em que pede a parceria do público em alguma letra. O título, com o letreiro aparecendo atrás de um rasgo na página, como se estivesse na folha de rosto, é o padrão que Nem imprimiu também em sua discografia solo. Quem já se familiarizou, reconheceria em qualquer lugar. O selo Tosco Todo, o selo de divulgação criado por ele, claro que não deixaria de se fazer presente.

Nem se preocupou em situar o leitor na narrativa: muitas vezes, ao citar um lugar, uma época, trata de explicar rapidamente esse contexto, o que torna o livro uma valiosa peça no grande quebra-cabeças da história cultural local. Através dele, conhecemos um pouco sobre a cena rock a partir do final dos anos 80 até sua época mais ativa, pós 2000, onde a Cama de Jornal conquistou seu lugar. É muito interessante ler uma autobiografia de um roqueiro onde o cenário é nossa cidade: geralmente se lê sobre lugares distantes e sem muita referência. Aqui, a maioria dos lugares e pessoas surgiam de forma clara na mente, e assim percebe-se a importância desta obra.

Da infância regada a manga à adolescência rebelde e cheia de descobertas, temos aquela etapa tão comum a biografias do rock, com drogas e o álcool, que persegue até hoje o autor. As histórias das turnês por todo o país são inspiradoras e mostram bem o espírito colaborativo do rock n' roll. Sempre bom se lembrar, durante a leitura, que tudo isso é conquistado no underground, sem apoio de imprensa, gravadora ou grandes empresas. O DIY funciona, mas é movido a boa vontade.

Estive presente em vários acontecimentos descritos no livro, como o histórico show no Point do Rock da micareta, em 2004. Eu lembro bem de qual ponto da praça da Guadalajara eu estava quando Nem anunciou: "Galera, é o seguinte: tem dois abadás aqui pra ser rasgado!". Acho que foi o meu primeiro show da Cama de Jornal e me diverti MUITO com o jeitão de Nem. Eu nem soube que esse episódio tivera alguma (má) repercussão à época, mas gostei do que vi, afinal, considerava as músicas pornográficas da axé music um câncer na sociedade, e que nosso espaço ali no cantinho, que já era marginalizado, não seria lugar para mais daquilo. Esse show me marcou como poucos.

Se tenho uma crítica negativa sobre o livro é sobre a total ausência da Casa do Rock, importante espaço que tinha Nem como sócio. Lá muita coisa importante aconteceu: para mim era o legítimo sucessor do Paraki, o lendário bar de rock onde se encontravam todos os alternativos da cidade. A Casa do Rock, pelo simples fato de ser voltado ao ROCK e ter uma vizinhança abastada em plena avenida Rosa Cruz, já era um sinal claro de que não duraria muito tempo. Claro que os "espertíssimos" roqueiros que usavam os muros da vizinhança como mictório e depósito de lixo (estes merecerão um texto à parte, pois não foi só ali que "queimaram o nosso filme") colaboraram muito para o fim precoce do espaço. Enfim, não sei se causaria algum desconforto por algum motivo interno, mas acho que ela mereceria um capítulo inteiro na obra sim. A Casa do Rock ocupa um espaço especial na memória de muitos.

O livro está à venda, atualmente, no Ponto do Disco (de Dalmo Sérgio, vocalista da banda Atestado de Pobreza, bastante citado no livro), em frente ao antigo Cine Madrigal. Nº 126, sala 106. Você também pode comprá-lo diretamente com Nem. Custa apenas R$40,00 (R$50,00 se for preciso envio pelo Correio). 


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Atualização (03/01/2020):

Em seu perfil no Facebook, Nem publicou o seguinte texto, sobre este post:

Novo site sobre a cena musical de Conquista, produzido por Plácido Mendes, que publicou uma resenha sobre o meu livro "Vagando por aí". Muito boa a resenha, e o site tá muito bonito. Obrigado pelo apoio na divulgação do livro. E já respondendo um questionamento na matéria, sobre a falta de um capítulo sobre a Casa do Rock, um bar que montei em sociedade com Niel Costa e Fábio Novais; pra mim foi uma experiência "traumática", que me deu dor de cabeça e prejuizo por vários anos depois do fechamento da casa em 2014 (até o começo de 2019 eu ainda pagava dívidas de banco que fiz pra abrir o bar). E dessa experiência, não consegui tirar nenhuma história interessante, apesar de a casa ter tido muitos shows legais, mas pra mim o que ficou foi isso, e acho muito pouco pra entrar no livro. É tipo um capítulo que eu quero esquecer, e esqueci propositalmente no livro! Mas sei que vários frequentadores terão suas próprias histórias da Casa do Rock! Ontem mesmo eu estava lá no Buteco de Vitão, na feira, com Chico Ribeiro e a gente falava sobre isso. Leiam a resenha e o livro!

 

Atualização (21/02/2022):

Em resposta ao mesmo post, Fábio Novais também expõe suas impressões: 

Para mim o projeto Casa do Rock também foi um duro golpe, além de trabalhar exaustivamente, tomei um prejuízo de mais de 15 mil reais. Por muito tempo fiz de tudo para esquecer, mas depois de muito tempo tenho apreendido a filtrar as lembranças e pensar apenas nas amizades que ali conquistei.

Paulo César de Araújo. Foto: Alaor Filho

Era uma manhã de sol, início de agosto de 1973. Recordo que seria o primeiro dia de aula depois das férias de julho. Eu estava a caminho da Escola Municipal Anísio Teixeira, onde cursava o quarto ano primário, quando um cartaz me chamou a atenção. Em um dos muros da avenida Régis Pacheco, no centro de minha cidade, o mural estampava em letras garrafais: “Roberto Carlos vem aí… Dia 31 de agosto, às 21 horas, Estádio Lomanto Júnior. Ingressos à venda”. Meu coração disparou. Finalmente eu poderia ver Roberto Carlos ao vivo. Finalmente Roberto viria a Vitória da Conquista, cidade da Bahia que deu ao Brasil nomes como o cineasta Glauber Rocha e os cantadores Elomar e Xangai, mas que adotou Roberto Carlos como se também fosse seu filho.

Desde pelo menos 1966, auge da jovem guarda, havia uma grande expectativa por um show de Roberto Carlos em minha cidade. Entretanto, o cantor se apresentava em Salvador e outras cidades baianas como Feira de Santana e Itabuna, e nada de vir a Vitória da Conquista. Assim como acontecia na época em relação à possível visita de Frank Sinatra ao Brasil, a presença de Roberto Carlos na cidade era várias vezes anunciada, mas, depois, nunca confirmada. Em setembro de 1969, por exemplo, um show chegou a ser programado, o local reservado, mas a agenda de Roberto não comportou Vitória da Conquista, que foi outra vez excluída do seu roteiro. Mas agora, em agosto de 1973, parecia que ele viria mesmo e imensos cartazes com a foto de Roberto Carlos estavam ali nos muros da cidade para quem quisesse ver. Seria um único show, em um único dia, única oportunidade de ver Roberto Carlos ao vivo em Vitória da Conquista.

Naquele início dos anos 70, Roberto Carlos ainda era chamado de o rei da juventude, mas ele já atingia todas as faixas etárias, principalmente as crianças, que desde a jovem guarda se divertiam ao ouvir temas como O calhambeque, O brucutu e História de um homem mau. Espalhados por todo o Brasil havia milhares e milhares de pimpolhos que cantavam o seu repertório, imitavam seus gestos e repetiam suas frases e gírias, mora? E eu era uma dessas crianças com os olhos e ouvidos postos em Roberto Carlos, e atento a tudo o que ele fizesse.

Mas, no meu caso, não apenas nele, porque costumava assistir a quase todos os shows que aconteciam em minha cidade. Com nove, dez, onze anos, ia sempre para a porta do Cine Glória, local da maioria dos shows, tentando filar uma entrada. E foi assim que assisti, em abril de 1972, por exemplo, ao primeiro show que Gilberto Gil fez no Brasil após sua volta do exílio em Londres. Seus pais, doutor Gil e dona Florinda, moravam em Vitória da Conquista e, nessa visita à família, Gil fez uma apresentação de voz e violão no Cine Glória. E lá estava eu, aos dez anos de idade, ouvindo Gilberto Gil discursar e cantar Expresso 2222, O sonho acabou, Back in Bahia e outras canções do exílio. Recordo também de um concorrido show do cantor Paulo Sérgio, outro de Nelson Ned e até um do veterano Nelson Gonçalves. Mas agora estaria na cidade o ídolo maior, Roberto Carlos, e, diferentemente dos outros, o show dele não seria no cinema e sim no estádio de futebol Lomanto Junior, o Lomantão.

Na véspera do dia do show eu estava tão ansioso que nem dormi direito. Não tinha ingresso nem dinheiro para comprá-lo. O pior é que, ao contrário do Cine Glória, que fica no centro da cidade e dava para eu ir até lá a pé, o estádio Lomantão fica bem mais distante. Era preciso pegar ônibus e, caso conseguisse entrar no show, chegaria muito tarde em casa. O preço do ingresso, me lembro muito bem, era 10 cruzeiros. Era uma nota vermelha que trazia a efígie de Tiradentes. Como eu desejei ter uma nota daquelas para comprar logo meu ingresso! Minha mãe percebeu a minha vontade e então tomou uma decisão. Deu-me o dinheiro de ida e volta do ônibus e pediu que eu fosse para a porta do Lomantão. Quem sabe encontraria alguém conhecido que pudesse me colocar dentro do estádio. Mas recomendou: se não conseguisse entrar, que eu viesse para casa imediatamente. Ela não iria dormir enquanto eu não voltasse.

O ônibus que me conduziu ao estádio estava superlotado. Fiquei na parte de trás junto a um grupo de moças e rapazes que cantavam canções de Roberto Carlos. Era um clima festivo e de muita alegria. O grupo de trás puxava uma canção e a galera do ônibus seguia acompanhando. E assim fomos até o estádio cantando sucessos como Quero que vá tudo pro inferno, Se você pensa, Jesus Cristo e outras.

Ao chegar ao estádio, notei que a fila estava imensa, mas andava com rapidez. A maioria das pessoas já estava com ingresso na mão. Acho que nem tinha mais ingressos para vender, talvez só nas mãos de cambistas. Eu procurava desesperadamente algum conhecido que pudesse me dar uma entrada. Corria de uma ponta a outra da fila. A pessoa mais conhecida que encontrei foi o gerente de um supermercado que havia perto da rua em que eu morava. Ele estava lá na fila com toda a família: a mulher, os filhos, a cunhada e acho que até a empregada dele ganhou um ingresso para o show. Depois de alguns minutos de hesitação, tomei coragem e me aproximei dele. Perguntei se ele podia pagar a minha entrada. Ele me reconheceu, estranhou que eu estivesse ali sozinho, mas disse que nada podia fazer porque os ingressos estavam contados. Fui para a porta de entrada principal do estádio e apelei ao porteiro para que me deixasse entrar. “Só com ingresso, e, por favor, saia da frente para não atrapalhar o público.”

Na época, Roberto Carlos utilizava para shows em estádios de futebol um equipamento de voz de 800 volts e dois canhões de luz de 2 000 volts de potência. Havia também um gerador próprio para suprir as dificuldades de energia nas cidades do interior. Tudo era transportado num caminhão Ford F-350, que eu vi parado em frente ao estádio. O caminhão trazia a inscrição RC-7 bem grande na sua carroceria de alumínio.

Àquela altura, Roberto Carlos já havia se tornado o cantor de todas as classes sociais, mas só o público de classe média para cima tinha o privilégio de ver o seu ídolo ao vivo. Na época, pouco antes de um show em Florianópolis, o próprio Roberto admitia ao repórter que o entrevistava: “Quer apostar como tem mais gente lá fora do que aqui dentro? Meu público é pobre, não pode pagar ingresso muito caro”. De fato, a grande maioria do povo brasileiro ficava do lado de fora dos shows de Roberto Carlos. E eu estava ali para provar isso.

Não era somente no Brasil que acontecia essa exclusão. No México acabou explodindo em forma de violência coletiva. O público do cantor provocou uma quase rebelião na cidade de Coatzacoalcos, no estado de Vera Cruz, no norte do país. Foi numa sexta-feira de abril de 1974, quando Roberto Carlos se apresentaria no ginásio de esportes Miguel Alena Gonzalez. Era um show há muito tempo aguardado na cidade e que atraiu uma multidão para a porta do ginásio. Entretanto, grande parte do público foi surpreendida com o preço dos ingressos, considerado muito alto. Os mais endinheirados compraram seus ingressos rapidamente, enquanto a parte mais pobre do público resolveu protestar, de paus e pedras na mão, acusando Roberto Carlos de cantar apenas para ricos. 

“Levamos um susto danado porque eles começaram a quebrar vidraças e jogar pedras quando já estávamos lá dentro”, lembra o baixista Bruno Pascoal, que tinha chegado mais cedo com os companheiros do RC-7 para testar o som do ginásio. Foi como uma reação em cadeia. Pessoas que passavam pelo local, e que estavam descontentes com o preço do pão ou da tequila, se juntaram aos fãs de Roberto Carlos no quebra-quebra. Segundo relato da imprensa, grande parte das dependências do ginásio foi destruída pela multidão enfurecida. Só faltaram mesmo pegar em armas e iniciar uma nova revolução no México, evocando Zapata e Pancho Villa.

Em Vitória da Conquista isto não aconteceu, até porque o estádio era longe do centro e os excluídos ficaram em casa. Lembro que o tempo estava passando e já não tinha quase ninguém fora do estádio. Corri para o portão lateral onde estava estacionado o imenso caminhão com o nome RC-7. Era por ali que entravam os músicos. Era por ali que entraria Roberto Carlos. De repente um corre-corre, alvoroço no portão lateral, seguranças se aproximando. Um Galaxie LTD metálico chegou lentamente e no banco de trás, com os vidros todos fechados, dava para ver que lá estava ele, com os imensos cabelos encaracolados que usava naquele início dos anos 70. Era ele mesmo, Roberto Carlos! Eu e um grupo de meninos começamos a gritar “Roberto, Roberto…”. Ele nos acenou com aquele seu sorriso cândido e triste, e o carro desapareceu no imenso portão lateral que se fechou rapidamente. Parecia o fim da esperança de entrar. Eu, que assistira a tantos shows em Vitória da Conquista, perderia justamente aquele?

Muitos dos que estavam ali no portão foram embora. Ficamos eu e alguns meninos de rua, sem camisa e todos negros – que costumavam estar sempre na porta do estádio, fosse em jogos de futebol, shows de música ou eventos religiosos. Mas, antes de dar a última tranca no portão, um senhor de terno azul, provavelmente da equipe de Roberto Carlos, nos chamou: “Ei, vocês, entrem aqui, rápido”. Corremos todos para o portão. Que sorte, pensei, no último instante a chance de ver o show de Roberto Carlos. Mas, no momento em que me abaixei para atravessar o portão, aquele mesmo senhor de terno azul fechou a minha passagem com o braço, dizendo: “Você não, você pode pagar” – e fechou o portão rapidamente.

É verdade, eu parecia mesmo que tinha dinheiro. Branquinho, de banho tomado e de roupinha arrumada. Naquela quinta-feira, minha mãe me colocou a calça e a camisa que eu só usava aos domingos para ir à igreja ou a alguma festa de aniversário. Eu estava todo limpinho e arrumadinho para ver Roberto Carlos. Por isso fui barrado, enquanto aqueles meninos negros, descamisados e de pés descalços, que historicamente sempre ficavam do lado de fora, naquele dia entraram. Fiquei ali alguns minutos paralisado na porta do estádio e só então me dei conta de que a noite estava muito fria. Do lado de fora, ouço os primeiros sons de bateria e guitarras. De repente, sinto o estádio estremecer numa explosão de gritos e aplausos. Era Roberto Carlos entrando em cena. E deu para ouvir a voz dele que chegava de longe, meio distorcida pelo vento que soprava forte. “Eu sou terrível/ e é bom parar/ porque agora vou decolar…” O show estava começando. Mas me lembrei da recomendação de minha mãe: voltar imediatamente se não conseguisse entrar. E, francamente, não dava mais para eu ficar ali. 

Voltei para o ônibus que agora retornava vazio para o centro da cidade. Ninguém cantava canções do Roberto. Toda aquela galera de jovens felizes na viagem de ida estava agora lá dentro do estádio. Ali, naquele ônibus, apenas o motorista, o cobrador e eu. Os únicos que não puderam ver o show. Perdi o show que mais desejei assistir na vida. Para mim, até hoje, Roberto Carlos nunca foi a Vitória da Conquista.

(Trecho da introdução do livro Roberto Carlos em Detalhes, lançado em 2006 e censurado pelo biografado)

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Paulo César de Araújo, conquistense, é historiador pela Universidade Federal Fluminense (UFF), jornalista pela PUC-RJ, mestre em Memória Social pela UNI-Rio e doutorando em Ciência Política (UFF). Profundo conhecedor da história da música popular brasileira. Autor de Eu não sou cachorro não: música popular cafona e ditadura militar (Record, 2002), Roberto Carlos em Detalhes (Planeta, 2006, obra censurada pelo biografado) e, recentemente, O réu e o rei: minha história com Roberto Carlos, em detalhes (Companhia das Letras, 2014), contando a história da censura à sua biografia do artista. 
Distintivo Blue. Foto: divulgação
Antes de chegar à atual formação, a Distintivo Blue passou por diversas fases. Até 2014, dezesseis músicos passaram pelo projeto. Muitos deles vieram de bandas já consagradas no cenário do rock local, tais como o Fernando Bernardino (Os Barcos), Diego Andrade (Ladrões de Vinil) e o Thomaz Oliveira (Café Com Blues). Sem falar nas idas e vindas do guitarrista Camilo Oliveira da antiga The New Old Jam, a qual deu origem a DB.

O nome do grupo se deu por meio de uma expressão usada pelo amigo e irmão do atual* baixista (Lú do Blues), o qual dizia que ter o distintivo blue é ter o dom ou habilidade para fazer o blues. As influências são variadas e partem tanto dos antigos clássicos internacionais, como Robert Johnson, Jimi Hendrix e The Doors, aos brasileiros como a Legião Urbana, Raul Seixas e Barão Vermelho.


Por conta das dificuldades, começaram com um som acústico que, com o tempo, foi se expandindo e dando origem a novos trabalhos. Após o primeiro show, gravaram a canção Luar de pontal, composta para a The New Old Jam, mas que nunca foi executada. A música fez parte da coletânea Máfia da Mortadela, lançada em 2010, da qual a DB foi a única representante fora do eixo Rio-São Paulo. Segundo a entrevista com o produtor do projeto, Roberto Terremoto, para o site Megaphone, as letras retratam bem a nossa realidade, mostrando que o blues também pode ser feito em português.


No mesmo período, a banda gravou mais três músicas, a instrumental Extempore blues, por Rômulo Fonseca, De cara no blues, de Thomaz Oliveira e Blues do covarde, por Malforea. Após um ano, lançaram o primeiro EP, Aplicando A Lei, em um dos principais programas de rock da cidade, O Som da Tribo. A DB tirou cento e dez fotos diferentes para que cada unidade do disco tivesse seu conteúdo único. Por isso, a primeira edição do EP foi limitada, tornando-se raríssima**.


As iniciativas não se limitaram a gravações de CDs, encartes e questões burocráticas. Para ampliar o acesso e divulgação, lançaram no mesmo ano a BLUEZinada!. A zine é distribuída gratuitamente e produzida pelos integrantes em formato de livreto. A cada edição é possível saber, em oito páginas, sobre todas as notícias vinculadas ao grupo, com dicas culturais e textos diversos. Tudo é registrado de acordo com as necessidades da banda, por isso não existe uma periodicidade certa.


Ainda sobre a iniciativa, vale ressaltar algumas curiosidades. Muitas pessoas não sabem, mas antes de começar a ter contato com antigas bandas locais, como a Tomarock ,em 2004, e a The New Old Jam, o vocalista I. Malforea atuava como roteirista freelancer do Maurício de Sousa, cujo contato começou aos quinze anos de idade. Além disso, foi licenciado em História e tanto o Rômulo Fonseca quanto o Camilo Oliveira seguiram a vida acadêmica. Tais fatos explicam, em grande parte, a preocupação com o meio social e mostram que muito do que aprenderam não se restringiu à sala de aula, tanto que o trabalho não se limita às informações do grupo e todos podem ter acesso.


Após um ano (em 2012), a DB voltou a lançar mais um disco, o segundo EP Riffs Shuffles, Rock N`Roll, que, assim como o primeiro, traz o encarte virtual, mas com uma capa única. Com uma formação mais equilibrada de integrantes, o álbum conta com a faixa O álcool me persegue, da Cama de Jornal, e a própria Na trilha do blues, a qual trouxe grandes participações no X Festival de Música Educadora FM e o segundo volume da coletânea Máfia da Mortadela, lançado em outubro do mesmo ano.


Em entrevista para o veículo de comunicação local, O Rebucetê, a DB comentou sobre o processo de composição do disco, ainda quando contavam com a participação do Camilo Oliveira. A reportagem chama atenção para o caráter diferenciado do grupo e explica a escolha da música O álcool me persegue, da Cama de Jornal, para integrar o projeto. Para os integrantes, a versão tem uma cara mais humorada e as próprias composições não chegam a fazer parte de canções de lamentos e “dores de cotovelo”, como a maioria dos artistas que aderem ao estilo. “O pessoal tenta seguir essa linha aqui no Brasil, mas acaba em boa parte dos casos não sendo verdadeiro, é só uma questão de imitar os caras de lá”, acrescenta o ex-guitarrista.


No ano de 2013, a DB lançou o single 2012, Miopia, o qual também rendeu grandes frutos no cenário baiano. A música foi classificada para participar do X Festival de Música da Bahia e o seu título foi escolhido por meio de uma seleção realizada no mesmo site da banda. Além de se tratar de uma crítica social, parte da canção foi composta no momento em que a cidade estava em maior desespero.


Com a greve da polícia em toda a Bahia, em fevereiro de 2012, o número de violência e roubo aumentou absurdamente, deixando muitas pessoas aflitas e com medo de sair de casa. Além disso, fazia pouco tempo que a nova edição do programa Big Brother Brasil havia começado a ser transmitido pela rede Globo. Esse e outros fatos inspiraram a letra por se tratar, principalmente, de problemas reais em momentos de distrações que o próprio reality show oferecia, como aponta os trechos abaixo:


A polícia em greve

Não temos saúde
Trancados em casa
Sem ter quem nos ajude
E então se segure:
A bolsa caiu!
O mundo acabando e só se fala em Big Brother Brasil

Dinheiro

Não há por aqui
E como pode o fruto do nosso trabalho
Assim, do nada, sumir?

Televisão

Ou mundo real?
“Não tenha medo de sair de casa quando for carnaval!”

O prédio caiu

O rio transbordou
Na terra do frio
Se morre de calor
As tropas nas ruas
Com escudo e fuzil
O mundo pega fogo e só se fala em Big Brother Brasil

Tanto a canção 2012 Miopia quanto Blues do covarde e Luar de Pontal, compostas pela DB, fizeram parte da coletânea do livro Letristas em Cena, lançado oficialmente em setembro de 2013. A obra faz parte do projeto Clube Caiubi de Compositores, produzido pela Branca Tirollo, da editora Sotaques, em São Paulo. O projeto também conta com um portal, no ar desde 2008, voltado para diversos compositores, intérpretes, poetas ou produtores e demais interessados.


Em 2014, após paralisar as atividades, o grupo voltou com participações em diversos eventos e com o lançamento do terceiro EP, Orgânico, em formato todo acústico. O disco foi feito com o objetivo de mostrar a verdadeira cara da banda, de forma livre e despretensiosa, incluindo apresentações em praças, ensaios e locais do gênero. Além dos próprios trabalhos e a coletânea da Máfia, a DB fez parte de vários projetos como o Best - Brazilian Blues e o Discover: Brazilian Blues, lançados em 2013.


O último período também propiciou novas oportunidades de partir para outros estados. Os eventos, antes mais focados ao território baiano, como festival Avuador, Natal da Cidade e Festival Suíça Bahiana, abriam espaço para a realização de turnês. A passagem por outras cidades do Nordeste, no último ano, fez com que o grupo percebesse o quanto tem sido valorizado, muito mais pelo público de fora do que local. A turnê gerou uma matéria para a Revista Gambiarra, em março de 2014, cuja reportagem muito elogia o desempenho do grupo, destacando os ensaios abertos ocorridos na praça Guadalajara em Vitória da Conquista, mais conhecida como a praça da Normal.


Apesar das diferenças de idade e percalços, a trajetória da Distintivo Blue muito se compara a das grandes bandas, embora não tenha o mesmo reconhecimento. O grupo conseguiu fazer muito mais do que bandas antigas, como a Excalibur Rock Band e a Mictian, em poucos anos de existência. Atualmente, a DB vem divulgando o mais recente álbum, Todos os Dias – Vol. I, lançado em setembro de 2015.


Por outro lado a DB poderia ter feito muito mais do que o esperado se não fosse a dificuldade de manter integrantes e outros entraves. A banda passou todo o ano de 2011 em formato acústico. Inclusive, uma das maiores perdas veio em setembro da mesma época, quando o ex-baixista Junior Damaceno veio a falecer, vítima de uma agressão. A Café Com Blues também havia passado três anos parada somente para definir o estilo da banda, voltando a se apresentar na cidade em dezembro de 2013.


Hoje, comparando a história de ambos os grupos, é possível desconstruir a ideia de que a falta de profissionalismo é o principal fator responsável pelo não alavancamento de muitas bandas baianas no cenário brasileiro. Apesar da facilidade de acesso à internet e os principais veículos de comunicação, muitos grupos ainda lutam por espaço. Por não serem tão reconhecidos em âmbito nacional, o blues baiano ainda é encarado com estranheza e poucos conseguem enxergar uma evolução.



* A formação da DB já sofreu alterações, desde a composição do livro.
** A segunda edição veio com uma capa diferente e contou com patrocínio do BNB (Banco do Nordeste do Brasil) e BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social)


Raquel Dantas nasceu em Vitória da Conquista-BA. Amante da música independente brasileira, conviveu desde cedo com vários artistas locais. Chegou a cursar Pedagogia na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, mas acabou desistindo para se dedicar ao desenho e à escrita. Seu primeiro livro, A Conquista do Rock, lançado em maio 2017, já nasceu pioneiro ao registrar a história da música independente local.






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