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Meio século de História e Memória da Música em Vitória da Conquista: uma herança religiosa e familiar (1950-2000)

Priscila Correia de Sousa Carneiro Investigamos a história e a memória da música em Vitória da Conquista a partir dos materiais empír...

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Priscila Correia de Sousa Carneiro

Investigamos a história e a memória da música em Vitória da Conquista a partir dos materiais empíricos levantados que, somados à luz da teoria, nos permitiu recuperar, parcialmente, a história e a memória da Música em Vitória da Conquista de 1950 a 2000, focando as igrejas batistas conquistenses, especialmente as fundadoras, relacionando-as com a formação de musicistas e a instalação de academias e conservatórios de música. 

Os depoimentos coletados e a documentação analisada confirmaram a hipótese de uma aprendizagem musical, sobretudo o ensino de piano, acordeom, órgão e canto coral, com finalidades ligadas à fé, à evangelização na concepção protestante na vertente batista. Grande parte dessas escolas ainda está atuante e vigorosa, formando músicos que cantam e regem os corais das igrejas, tocam piano e órgão nas atividades religiosas e, sobretudo, vêm na música um importante e imprescindível instrumento de evangelização. Estas instituições possibilitaram uma formação musical para muitas pessoas, dentro ou fora da comunidade religiosa, que se realizaram como músicos profissionais, diletantes e/ou professores de música. 

Identificamos qual o papel que algumas instituições (igrejas, conservatórios, filarmônicas, etc.) exerceram na formação musical de determinados grupos em Vitória da Conquista e tomamos conhecimento de que as duas escolas de música que existiam na cidade, entre 1950 e 1970, foram as de Dona Nair Borges de Oliveira (católica, esposa de um dentista) e a de Dona Almerinda Figueira de Oliveira (batista e esposa de um pastor). A primeira, vinculada ao Instituto de Música da Bahia, criado em 1897 e, posteriormente, incorporada à Universidade Católica de Salvador- UCSAL. Almerinda Figueira de Oliveira, que foi aluna de Dona Nair, iniciou suas atividades em sua própria residência e, somente em 1964, sob a direção da primeira filha, Vanilda Figueira de Oliveira Freitas, se transformou no Conservatório de Música de Vitória da Conquista, vinculado ao Conservatório Brasileiro de Música do Rio de Janeiro. 

Constatamos que, embora as duas professoras tenham sido responsáveis pela aprendizagem musical de muitas pessoas, a escola administrada por Dona Nair deixou poucos discípulos, ao contrário da escola administrada por Dona Almerinda, que permitiu uma imensa cadeia sucessória ─ razão do presente estudo. Para desenvolver esta pesquisa, utilizamos a história oral, visto que focamos as vivências de sujeitos cujas memórias remeteram ao contexto religioso e musical que tratamos neste trabalho. Tomamos como grupo de análise a Família Gusmão Figueira, tendo como figura central Dona Almerinda Figueira de Oliveira, seus filhos, netos e sobrinhos, assim como ex-alunos do conservatório. Também utilizamos outras fontes documentais, escritas e imagéticas, como jornais, fotografias e/ou revistas e, por fim, entrecruzamos os dados coletados à luz da teoria da memória, o que nos fez perceber que o cenário em torno da música na cidade neste período, fazia parte de um todo muito maior e construído de forma coletiva, guardado por sujeitos unidos pelo tríplice liame: música, igreja e família. 

PALAVRAS-CHAVE:
Memória. Educação Musical. Família. Religião Protestante.




Em 2004 a Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista lançou o selo Série Cultura Conquistense, com o objetivo de fomentar e preservar a musicalidade local. O primeiro lançamento da série foi o CD Alegrementes Cantano - Ternos de Reis de Vitória da Conquista, valiosíssimo registro da música folclórica da nossa zona rural, infelizmente já desconhecida por boa parte da população urbana. 

Com patrocínio da Petrobras e direção musical do maestro João Omar, foi gravado "ao vivo" no Teatro Glauber Rocha (UESB). O encarte, com 28 páginas, traz um texto do professor Ruy medeiros e do próprio João Omar, bem como todas as letras e informações sobres os ternos de reis. Com tiragem de apenas 1000 unidades, esteve disponível em alguns locais da cidade, numa época em que o CD começava a perder espaço para o MP3. Não houve reedição, o que hoje o torna raro. 

Felizmente, tivemos acesso a uma cópia, que foi digitalizada para continuar o trabalho de preservação e circulação. Confira, abaixo, informações presentes no encarte:


TERNO DE REIS

Ruy Medeiros - advogado, pesquisador e professor universitário

Ternos de Reis estão presentes há muitos anos em Vitória da Conquista. Trata-se de uma tradição europeia que fincou raízes no Brasil. Já em seu Compêndio Narrativo do Peregrino da América, por volta de 1720, Nuno Marques Pereira documenta a existência do festejo grupo de homens, numa vila, de porta em porta, cantando reis, acompanhados de instrumentos musicais.

Espalhado pelo Brasil afora, também chega a Vitória da Conquista. Tem seu florescimento aqui sobretudo nos anos 20 a 50 do século passado, embora antes já aqui estivessem.

Durante vários anos, os ternos de Reis eram acompanhados de pastorinhas, cujo número variava, podendo ser superior a 30 ou mais, com roupas coloridas, entoando cantigas religiosas ou não.

Depois, os Ternos de Reis tornaram-se mais simples, nas vilas, povoados e na cidade de Vitória da Conquista.

E não são poucos os Ternos de Reis. Dentre outros, podem ser citados: Brasil Vencedor, Cruzeiro do Sul, Estrela Dalva, Flores de Boa Nova, Reis de Campo Formoso, Reis de Iguá, Divino Espírito Santo, Deus Seja Louvado, Os Três Reis Magos e Deus Segue Nossa Guia, estes quatro aqui representados.

Os Ternos de Reis fecham as comemorações do Natal, celebrando a caminhada e a visita dos Reis Magos aos recém-nascido Jesus Cristo. Embora as cantigas que entoavam geralmente apresentem semelhanças, há variantes. Apesar da simplificação verificada nos últimos 50 anos, os ternos desenvolvem suas atividades como há séculos: um grupo de homens e mulheres, cantando, e tocando instrumentos musicais, andando pelas ruas e visitando casas.

A primeira parte consiste na passeata, entoando cantiga, acompanhada de tambores, pandeiro, caixas, flautas e matraca, alusiva à viagem dos Reis Magos e ao nascimento de Jesus Cristo. A segunda parte é o cântico à porta da casa visitada (que deve estar fechada até o fim do canto do pedido de visita). A terceira parte é a visita ao presépio (lapinha) ou à imagem de Jesus Menino e, feito o canto em homenagem a esse, segue-se a parte final com a "brincadeira" em que algumas quadras são cantadas em ritmo de samba de roda, com acompanhamento de instrumentos musicais, e exibição coreográfica, e bebida (licor, de preferência) é servida aos reiseiros.

Os Ternos de Reis sobrevivem no Planalto da Conquista e podem ser encontrados dos dias 25 de dezembro a 6 de janeiro de cada ano. A Prefeitura Municipal tem incentivado apresentação a um público maior, por vários ternos, durante festejos natalinos em Vitória da Conquista. Vale a pena vê-los em sua indumentária típica e em sua alegria contagiante.


A COREOGRAFIA SONORA DOS TERNOS DE REIS EM VITÓRIA DA CONQUISTA

João Omar de Carvalho Mello - compositor e regente graduado pela UFBA e mestre em regência orquestral

Nos reisados da região sudoeste da Bahia, vamos encontrar um vasto material rítmico e melódico que apresenta, à sua maneira, um modo de utilização dos instrumentos e dos maneirismos típicos dos cantos folclóricos em geral. Para apresentar estas características, é necessário fazer um comentário sobre os elementos musicais que fazem parte deste contexto.

Entre os elementos que compõem o quadro fundamental do conceito de música na tradição ocidental (ritmo, melodia e harmonia), segundo vários estudos especializados, o ritmo seria, hipoteticamente, o elemento musical mais primitivo. Nesse sentido, o ritmo é perceptível de maneira mais imediata, enquanto a melodia encontra-se num nível um pouco mais complexo, como uma "derivação" do ritmo (frequência que equivale à quantidade de oscilações por minuto), no qual se combinam durações e parâmetros de "altura". Já para a harmonia, de conceito vasto, cabe a organização simultânea desses elementos.

A música folclórica realiza todo esse complexo sem que haja uma separação de seus componentes, ainda que cada instrumento realize sua performance específica. As maneiras de execução refletem o vigor, a energia e a introspecção com que os participantes mergulham, enquanto vivenciam os seus cantos. Geralmente os reisêros não separam a música da ritualística que se desenvolve em torno dela. As gravações aqui apresentadas são um exemplo disso: os participantes tinham a sua lógica de apresentação começando sempre pelo canto de santo reis, seguido pelos sambas, concluindo com o canto de retirada, que estava definida pela ordem ritual própria da tradição e não pelas vicissitudes técnicas das gravações.

Os instrumentos utilizados pelos diferentes grupos comportam uma formação básica que consiste no canto a duas vozes (quase sempre em terças paralelas), no pandeiro, no bumbo ou, às vezes, zabumba, nas caixas (primeira e segunda) e nos pífanos (sempre em par). Em alguns momentos, vamos encontrar também sanfona, violão, viola, além de grupos que se utilizam de um número maior de pandeiros, triângulo, querrequexé, etc.

Os acompanhamentos dos cantos mantêm um formato no qual tanto a percussão, que é predominante, quanto as melodias dos pífanos, seguem um padrão típico. O bumbo emite os sons graves com timbre denso, especialmente quando feito de couro. Ele ajuda na acentuação básica do compasso e, em alguns momentos, desenvolve uma série de improvisações rítmicas (acompanhadas por algum tipo de movimento corporal) combinadas com as caixas. As caixas, por sua vez, compõem os timbres médios, mantendo um "diálogo" entre si. Enquanto uma segue com a célula rítmica básica, a outra desenvolve uma série de acentuações em contratempo. Tanto as caixas quanto o bumbo utilizam esporadicamente um toque com a baqueta na borda do instrumento, sempre de maneira muito apropriada e cadenciada.

Os pandeiros, junto com triângulos e querrequexé, compõem os timbres agudos deste conjunto de percussão e, junto com as caixas, formam a "esteira sonora" de volume reduzido que acompanha o canto. Esta "esteira" às vezes é composta por triângulo, pandeiros e caixas, que mudam o toque, reduzindo a força (em alguns casos, como os das caixas, usando o toque na borda do instrumento), contribuindo para um equilíbrio sonoro no qual o canto se faz entendido.

Os pífanos ou gaitas, como são chamados pelos membros dos ternos, geralmente são os que realizam a "puxada", que faz a chamada dos cantos. Anunciam por alto a melodia principal e ficam em pausa, enquanto o canto é entoado. Logo em seguida, eles respondem com variações da melodia. Entre o primeiro e o segundo pífano se estabelece uma relação intervalar predominante de terças paralelas. Em alguns momentos devido não somente à limitação da extensão do instrumento como também à compreensão melódica do executante surgem outros intervalos de passagem, que chegam a realizar cruzamentos de vozes, ostinatos em um instrumento, enquanto o outro se movimenta, etc.

Um aspecto, que aparece tanto nos pífanos (devido à sua estrutura física), quanto em certos momentos dos cantos, é o emprego intuitivo de microtons. Estes microtons (monesis e triesis) ressaltam a expressividade das melodias. Eles também refletem aspectos do modalismo nordestino, pois tendem a alterar, comumente no sétimo e quarto graus, a escala modal jônica (modo mais comum na tradição ocidental), dando um singular colorido a vários aspectos da melodia entoada. Nos pífanos, muitas são as notas que dificilmente poderiam ser grafadas em linguagem musical, pois ficam indefinidas as alturas, ainda que seja clara a sua expressividade. As variações melódicas realizadas pelos pífanos superam, através dos floreios, as limitações naturais da escala do instrumento.

A compreensão técnica dos elementos apontados nesta introdução não é essencial para a apreciação da riqueza sonora aqui apresentada. O que importa é que estes personagens, agentes históricos de nossas tradições, realizam os cantos com grande habilidade e musicalidade. Se para os compositores, poetas e estudiosos do assunto a informação se faz imprescindível, para o ouvinte o que interessa é a plena fruição da arte do nosso povo e a sensibilidade de reconhecer esses grandes artistas "anônimos".


FAIXAS

1) Vinheta: Passo Preto - Terno de Reis Deus Seja Louvado
2) Samba - Terno de Reis Divino Espírito Santo
3) Reis da Lapinha (Alegrementes Cantano) - Terno de Reis Deus Seja Louvado
4) A Maré Encheu - Terno de Reis Coração de Jesus
5) Preá Corredeira - Terno de Reis Os Três Reis Magos
6) Samba Vira Mão - Terno de Reis Três Reis Magos
7) Reis do Divino Espírito Santo - Terno de Reis Divino Espírito Santo
8) Vinheta: Moça Bonita - Terno de Reis Deus Segue Nossa Guia
9) Passo Preto - Terno de Reis Deus Seja Louvado
10) Mariquinha - Terno de Reis Os Três Reis Magos
11) É Hora de Viajar - Terno de Reis Os Três Reis Magos
12) Hora da Viagem - Terno de Reis Deus Segue Nossa Guia
13) Viva Maria no Céu - Terno de Reis Três Reis Magos
14) O Galo Cantou - Terno de Reis Divino Espírito Santo
15) Preá Corredeira 2 - Terno de Reis Santo Reis
16) Moça Bonita - Terno de Reis Deus Segue Nossa Guia
17) Samba - Terno de Reis Deus e as Águas, Terra, Mar e Céu
18) Viva Janeiro - Terno de Reis Deus Seja Louvado
19) Contra-Dança - Terno de Reis Três Reis Magos
20) Samba de Despedida - Terno de Reis Deus e as Águas, Terra, Mar e Céu
21) Despedida do Santo Reis - Terno de Reis Divino Espírito Santo


TERNOS DE REIS

Deus Seja Louvado - Povoado de Dantelândia. Mestre: Dermevaldo Sales
Deus Segue Nossa Guia - Bairro Panorama. Mestre: Irênio Lima
Três Reis Magos - Povoado Rancho Alegre, Distrito de Iguá. Mestre: Clemente Francisco da Silva (Seu Lezinho)
Três Reis Magos - Povoado Baixado Cedro, Distrito de José Gonçalves. Mestre: Joaquim Ribeiro de Oliveira
Deus e as Águas, Terra, Mar e Céu - Bairro Alto Maron. Mestre; Agapito Pereira da Silva
Coração de Jesus - Bairro Cidade Modelo. Mestre: Anelita Matos dos Santos
Terno de Santo Reis - Fazenda Volta Grande. Mestre: Otacílio de Jesus Santos
Três Reis Magos - Fazenda Gameleira. Mestre: Francisco Fernandes (Tançá)
Divino Espírito Santo - Povoado de Baixão. Mestre: Maria Rosália dos Santos


FICHA TÉCNICA

Realização: Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista
Patrocínio: Petrobras
Direção Musical: Maestro João Omar de Carvalho Mello
Produção Executiva: Paulo Cézar Lisboa, Ricardo Santos Marques, Chico Luz, Sônia Leite
Assistente de Produção: Mércia Carvalho, Corita Andrade
Estúdio: Zero db Studio
Técnico de gravação, Mixagem e Masterização: Chico Luz
Técnico de Som: Beda
Transcrição das Letras: Solange Paixa
Revisão de Texto: Elomar Figueira Mello, Ana Isabel Rocha Macedo
Capa / Encarte / Projeto Gráfico: Beto Veroneze
Ilustração: Sílvio Jessé
Fotografias: Jocélio Ferreira




O Banco do Nordeste e o Coletivo Suíça Bahiana, integrante do Circuito Fora do Eixo, trazem pra cidade uma nova opção de Festival, o Rock Cordel. Gratuito, na Praça Barão do Rio Branco e com sete atrações diárias, vindas de várias partes do país, o evento acontecerá durante os dias 9 e 11 de agosto, a partir das 19h.

A programação do evento foi pensada com base na renovação da música brasileira e em novas apostas. A cena local, que está passando por um novo momento, também tem seu espaço garantido para mostrar o seu trabalho. Além da programação musical haverá palestras durante o dia de sábado e espaço para convivência com a Banquinha Suíça Bahiana, ponto de distribuição dos produtos dos artistas convidados, em todos os dias do festival.

Bandas como Surf Sessions, Os Barcos e Maldita integram o line up que vai movimentar a cidade durante estes três dias. Confira a programação:

Quinta, dia 09 de agosto:

19h Na Terra de Oz (BA)
20h Distintivo Blue (BA)
21h Enio e a Maloca (BA)
22h Ladrões de Vinil (BA)
23h Cama de Jornal (BA)
00h Soulscream (PB)
01h Warcursed (PB)

Sexta, dia 10 de agosto:

19h Mendigos Blues (BA)
20h Impisa Roots (BA)
21h Pietros (RJ)
22h Garboso (BA)
23h 1 em pé 2 alados (BA)
00h Maldita (RJ)
00h Amsterdã (CE)

Sábado, dia 11 de agosto:

19h Neubera Kundera (BA)
20h Tangerina Jones (BA)
21h Folks (RJ)
22h Surf Sessions (DF)
23h Os Barcos (BA)
00h Princípio Ativo (BA)
01h Callangazoo (BA)



SERVIÇO:
Praça Barão do Rio Branco, Vitória da Conquista – BA
Sexta, dia 09/08; Sábado, dia 10/08; domingo, dia 11/08.
A partir das 19h
Entrada Gratuita
Mais informações: www.facebook.com/suicabahiana

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Postado originalmente em 06/08/2012, em Nildo Freitas
Miguel Côrtes no estúdio do Som da Tribo. Foto: Ester Barreto

Para quem não mora em Vitória da Conquista-BA ou cidades próximas deve se perguntar: quem é esse tal Miguel Côrtes? Provavelmente seu nome está nos agradecimentos de todos os CDs de bandas independentes da região sudoeste baiana. É, provavelmente a figura mais conhecida e ilustre do cenário, principalmente por ser "das antigas" do rock conquistense e um radialista que sempre falava coisas que os outros colegas não tinham coragem de dizer no ar. Foi o principal idealizador, produtor e apresentador do programa O Som da Tribo, a grande voz alternativa e independente da terceira maior cidade da Bahia e, por incrível que pareça, uma das mais frias do nordeste.

No programa, tinham espaço garantido todas as bandas, desde que do cenário alternativo aos queridinhos axé-forró-sertanejo-e-similares. "Porcarias", dizia em bom tom todos os sábados, das 19 às 21h. Durante um bom tempo trabalhou numa das poucas lojas de CDs da cidade. Era o vendedor mais visitado e requisitado. Levou uma vida simples e via no rádio a profissão mais divertida de todas. O Som da Tribo também era independente, com horário comprado com dinheiro de patrocinadores que também acreditam que é possível trazer boa música ao rádio. E assim se passaram mais de 15 anos de programa.

A partir de 2009 surgiu a ideia de levar o programa à internet. foi criado o blog do Som da Tribo. Tratou logo de escolher algumas figuras para ajudá-lo a acrescentar conteúdo(incluindo este que escreve). Hoje o blog é o principal divulgador da cultura independente local. O programa de rádio é disponibilizado para download e, neste exato momento, as músicas de seu acervo pessoal estão tocando no SomdaTribo.com

Muitos se acostumaram à sua voz no rádio, nas ruas ou apresentando shows. Adorava músicas dos anos 80 e, volta e meia, quando alguém ligava na 96 FM e ficava surpreso por ouvir várias músicas boas num longo período de tempo, logo percebia que o DJ era Miguel. Sempre tinha alguma história sobre o rádio conquistense para contar. recentemente se emocionou ao anunciar a morte de um colega, Gilmar Cardoso, também figura carimbada no meio radialístico local.

Agora fica aquele vazio e a pergunta: quem poderia fazer o mesmo por ele? Como tocar adiante O Som da Tribo, que sempre dizia ser feito por todos, sem ele? Ao mesmo tempo em que se pensa que não há uma pessoa ideal para prosseguir seu projeto, a qual se sabe que era, talvez, seu único filho, algo que realmente gostava e guardava grande espaço em sua vida. O último programa está, como sempre, disponível no site, para baixar e ouvir. Provavelmente será o mais baixado de todos. É uma lembrança perfeita do criador e criatura juntos, tal como sempre foram.

Seu ciclo se encerrou e todos sabem muito bem qual foi sua grande obra. Qualquer um teria desistido de seguir em frente com o programa e tudo o mais que vinha no pacote. Mas seguiu até o fim, fazendo o que mais gostava. Ironicamente, o sujeito mais famoso do rock conquistense não cantava nem tocava nenhum instrumento. Se pode servir de algum consolo, Miguel foi uma das poucas pessoas que conseguiram terminar a vida fazendo o que mais gostavam e o melhor, sendo reconhecidas por isso. E assim termina sua jornada, no mês do rock, aos 45 anos, cercado de amigos e admiradores. "Se eu pudesse escolher, morreria dormindo", nos disse certa vez. Sua última grande realização. Lá se vai um verdadeiro vencedor.


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Postado originalmente em 06/07/2012, em Distintivo Blue - Site Oficial.
Cama de Jornal fechando o evento. Foto: I. Malförea


2012 foi um ano musicalmente interessante para mim: com a Distintivo Blue, produzi e lancei o seu segundo EP, Riffs, Shuffles, Rock n' Roll, contando a já eterna Na Trilha do Blues e a nossa versão de O Álcool Me Persegue, da Cama de Jornal, enriquecendo aos poucos a vivência em estúdio. A BLUEZinada! já existia e o site da banda já havia se transformado num portal especializado em blues, que depois veio a ser o site da zine. Já tinha alguma experiência em produção de eventos, mas sempre partindo da premissa em que tudo era feito "nas coxas", porque sempre faltava apoio.

Então, à época como servidor do SESC, e trabalhando justamente no Setor Social, o que realizava todos os eventos culturais da entidade, me deparei com a possibilidade de organizar um evento dedicado ao rock, aproveitando o projeto Quinta Musical, que acontecia semana sim, semana não, na praça 9 de Novembro, pleno centro da cidade. Dia 13 de julho (uma sexta) seria o dia mundial do rock e, sabe-se lá como, consegui convencer algumas pessoas beeeem caretas de que seria boa ideia lotar a praça de gente e som menos convencional (ao menos para o mundinho quadradão deles).

O SESC Bahia, especificamente o de Conquista, é bem diferente da matriz em São Paulo, amplamente conhecida na história musical brasileira, por sua mente aberta (hoje já rendendo outra leva de críticas) e importância no rock nacional. Aqui é diferente: apesar de não ser um órgão público, parece amar a burocracia, criando dificuldades desnecessárias para tudo. E, espantosamente, não se importa realmente com cultura, e sim com a quantidade de pessoas que atrai para seus eventos. Sua moeda chama-se ATENDIMENTO e deve ser sempre superado ano após ano, o que significa que se hoje um evento conta com 1000 atendimentos (pessoas presentes, recebendo os serviços, que podem ser assistir a um show, ser atendido por uma oficina de artesanato ou medir a pressão, ou qualquer coisa do tipo), no ano que vem esse número deve ser superado. 

Mas, tal qual aqueles funcionários públicos caricatos, ouvi de meu chefe à época: "se eu superar demais o número anterior, no ano seguinte terei de ter mais trabalho ainda pra superar esse número, então eu prefiro superar só um pouco". Então, o número a superar 1000 será 1050, e não 5000, ainda que perfeitamente possível. Triste, numa entidade paraestatal (que usa dinheiro público), cujo slogan escrito no muro enorme em frente à piscina era: "a maior rede privada de bem-estar social". O império do comodismo, da preguiça e da má vontade, tal qual em caricatos órgãos públicos. Nem preciso dizer que, para uma pessoa cheia de ideias como eu, ter as ferramentas (que antes eram tão sonhadas) para criar coisas boas, mas se deparar com esse muro de má vontade se tornou altamente decepcionante com o tempo.

Voltando, tratei de pensar o formato do evento, que já tinha sua estrutura pronta (palco, som, espaço, apoio, dinheiro para os músicos, etc), dando certa liberdade para criá-lo. Pensei em chamar três bandas (óbvio que a minha não poderia participar, pois eu pertencia ao corpo de funcionários do contratante) numa sequência lógica, do suave ao pesado, para não assustar os também caretas lojistas da praça. O evento começaria no início da tarde, mas a música ao seu fim e terminaria à noite, quando as lojas já estariam fechadas. Me veio, então, como primeira atração, o classic rock da Tombstone, que tinha à frente por meu colega de Distintivo Blue e The New Old Jam Camilo Oliveira, guitarrista, e Tales Dourado (vocalista, à época também com a Randômicos). Eu conhecia o som, sabia da qualidade e que não me fariam passar vergonha.

Em seguida, passei ao autoral: chamei a Ladrões de Vinil, que sempre faz dos shows espetáculos, e que trariam certamente muitos "atendimentos" para mostrar aos caretas que o rock também tem seu peso, não só os arrochas e forrós insuportáveis que eles estavam acostumados a dar dinheiro fácil. Pra fechar a noite (lembrando que as lojas já estariam fechadas e, portanto, não haveria encheção de saco dos empresários), a insuperável Cama de Jornal. Três atrações muito boas, que representavam muito bem o rock conquistense, sem assustar os velhotes do SESC (ao menos na minha cabeça).

O banner do palco em seu conceito original
Fui ao Corel e fiz o flyer, o banner que seria exposto no palco, chamamos as tradicionais "oficineiras", que atraíam gente para fazer bonequinhos de biscuit, mandalas, enfeites de cabelo, e coisas do tipo. Geralmente boas pessoas, complementando sua renda de forma honesta. Claro que sabia que isso não daria muito certo, mas não dava pra mudar o mundo de uma vez só. Não disse nada e deixei que as chamassem, mesmo sabendo que o público não seria como o de sempre. No banner, a clássica frase Long live Rock n' Roll, universal, escrita em inglês. Mesmo em marte, seria facilmente reconhecida por todos os que trazem o rock como filosofia de vida, não apenas gênero musical.

Mas, lembra o que eu disse sobre a dificuldade em se sair do mais do mesmo no SESC? Todo material de divulgação dos SESCs do interior devem ser enviados à unidade de Salvador, para que aprovem, o que sempre me deu a impressão clara de que os soteropolitanos consideram o interior uma selva de ignorantes semianalfabetos, incapazes de fazer qualquer coisa sem algum "adulto" fiscalizando. Claro que encrencaram com meu banner: não gostaram da frase em inglês. Por e-mail, expliquei que a frase é propositalmente em inglês porque é dita em inglês em todo o mundo, como um grito de guerra universal. Óbvio, não adiantou: traduziram a frase para português, em e-mails que demonstraram perfeitamente sua total ignorância para o rock e ainda devem ter me chamado de caatingueiro ignorante, mal sabendo eles que o interior os considera um bando de folgados arrogantes e mal-educados.

Os cachês não foram altos, mas ainda consegui que fossem consideravelmente maiores que o normal para cada banda nesse projeto, o que foi uma grande vitória para mim, que sempre lutei por cachês dignos nesta cidade (me rendendo uma boa coleção de antipatizantes, que aproveito para mandar ÀQUELE lugar). O flyer foi impresso e distribuído pelas redes sociais, sem nenhum problema. Eu estava muito animado por contribuir com a cena tendo uma boa e rara estrutura comigo. Enfim veria algo diferente promovido pelo SESC Conquista: "de graça, na praça", sem baixaria, sem bunda, sem letra pornográfica, com o devido peso, cuidado, trabalho e mensagens construtivas. Afinal, esse não era o real propósito do SESC? Alguém precisava lembrar os falsos moralistas caretas daqui que cultura não é só número. Curiosamente, a pornomusic era sempre promovida por velhos burocratas evangélicos moralistas. A baixaria valia, desde que trouxesse atendimentos e não se comentasse sobre o assunto. Ainda não acredito que consegui ficar dois anos naquele lugar.

Chegou o dia: a Tombstone fez um belíssimo show, conforme o previsto. Meu chefe parecia estar gostando. As oficineiras estavam trabalhando bastante também. Como o som deles era essencialmente feito por covers em inglês, não houve nada de assustador aos meus colegas. Logo em seguida, os Ladrões de Vinil, com seu show essencialmente enérgico e divertido. Um rockabilly conquistense de primeira. Não tem como não gostar de um show desses. A praça foi enchendo, as lojas foram fechando, a noite foi caindo. Estávamos lá desde as 13h, mas os shows começaram bem mais tarde, propositalmente, porque já tínhamos recebido reclamações dos lojistas em outros eventos: gostavam do movimento que trazíamos, mas não queriam barulho. Aprendi muito sobre descaso, oportunismo e falta de educação para a cultura no Brasil nessa época.

Quando a Cama de Jornal subiu ao palco, já era noite. Nenhuma loja aberta, mas a praça lotada. O show dos caras é essencialmente autoral, e o público canta todas as músicas junto. O vocalista, Nem, é uma figura única: passa sua mensagem, e ainda faz rir com seu jeitão. As oficineiras caíram fora, por causa do horário. A praça ficou do jeito que deveria ser desde sempre: a música, os músicos e o público à vontade. O volume subiu, o show aconteceu e o objetivo estava cumprido: nunca o projeto Quinta Musical havia conseguido tantos "atendimentos" antes. O rock não errou! E calou a boca dos burocratas caretas e acomodados do SESC Conquista, que, por sinal, estão lá até hoje, torrando o dinheiro público com bandas de baixaria todo fim de semana, à beira da piscina.

EPÍLOGO: apesar do grande sucesso com recorde de atendimentos, e eu estar explodindo de orgulho da minha tribo, o resultado não foi positivo: os lojistas reclamaram do barulho, meu chefe achou o público e as bandas "agressivos demais" (embora não tenha acontecido uma só confusão durante todo o evento, como é de praxe em shows de rock. Ele simplesmente não foi capaz de entender o que é uma roda punk ou um vocalista dizendo coisas diferentes de "mão na bundinha", ou "desce até o chão"). Eu achei que tinha conseguido abrir os olhos da entidade para o fato de a cultura ser ampla, e não compreender apenas música para rebolar e simular relações sexuais: a única exceção à essa regra no SESC Conquista era o projeto Sonora Brasil, que é nacional e faz músicos de todo o país circularem nas unidades SESC, sendo obrigatório recebê-lo. Os músicos de voz-e-violão até tinham algum espaço, mas a burocracia cresceu a ponto de espantar todos os músicos e desconsiderar o SESC como uma possibilidade (isso eu sei que está acontecendo em todo o Brasil). Mas, meu(minha) amigo(a): se o receptor não quer ouvir, não adianta o malabarismo que o emissor tenha de fazer.

Esse foi, possivelmente, o início da decepção que me fez acabar com a Distintivo Blue no fim desse mesmo ano, ao ver, no Natal da Cidade, bandas cover, mas com influência política, tomarem o lugar de bandas autorais, cuspindo nas próprias especificações do edital e na cultura regional como um todo. Um ano depois, na Casa do Rock (de Nem, da Cama de Jornal), a DB voltou à ativa e tivemos um período de altíssima produtividade até o final de 2016, num cenário ainda mais sufocante para a música autoral conquistense. Aprendi muito sobre como a cultura é encarada pelo poder público, pela iniciativa privada, por entidades paraestatais voltadas à cultura, pelo público e pelos próprios músicos. É preciso sim ser uma muralha de aço para continuar tentando. Quem tiver alguma força, por favor, use-a!



Clique na imagem abaixo para acessar todas as fotos:

Dia Mundial do Rock SESC - 12/07/2012
Foto: Divulgação
“Volta Pra Casa João” aflora debate sobre liberdade de expressão e conta com voz e guitarra do emblemático cantor e compositor baiano.


“Volta Pra Casa João” é o título do primeiro single do álbum “Balbúrdia”, anunciado pela banda conquistense Dona Iracema. A música, de autoria da vocalista Balaio e do baixista Diegão Aprígio, ganhou um videoclipe, lançado nesta sexta-feira (9), no YouTube, e que conta com a participação do emblemático cantor e compositor baiano Luiz Caldas.

O videoclipe tem a direção de Duane Carvalho e conceito de Paulo Koi, que buscou remontar, por meio de imagens antigas, os carnavais da época em que a axé music ascendeu Brasil afora, especialmente com o “fricote” de Luiz Caldas. Assista ao clipe de “Volta Pra Casa João”:


A voz e a guitarra presentes na música são características. “Luiz Caldas agregou a guitarra baiana que é a cara dele e da Bahia. A gente achou que seria a cereja do bolo e foi mais do que isso. Ele trouxe todo o tempero”, detalhou o baterista Oscar.

“É uma música que soa antiga e moderna, ao mesmo tempo. Houve uma sensibilidade de colocar pessoas da comunidade LGBT+, pois este detalhe dialoga diretamente com a letra da música. Ela fala de liberdade de expressão e do convite a uma roda de caatincore a um determinado grupo de pessoas”, explica Balaio. “Fala em estar à vontade em espaços nos quais eu me sinto excluída”, destaca a vocalista, se referindo à sua luta pelas causas das pessoas LGBT.

Este é o primeiro álbum da banda, após ter lançado 4 EPs autorais ao longo de 7 anos de carreira: “Dona Iracema” (2013), “Um pouco de CD” (2014), “Máquina de Amarrar Jegue” (2016) e “Caatincore Iracemático” (2018). Dessa vez, a produção é assinada por André T, produtor musical responsável por registros de bandas como Cascadura, Retrofoguetes e Baiana System, e é lançada pelo selo Orangeira Music.

A Dona Iracema é composta por Balaio (vocal), Diegão Aprígio (vocal e contrabaixo), Anderson Gomes (vocal e guitarra) e Oscar Sampaio (vocal e bateria).

A banda baiana será atração do Release Showlivre no dia 06/09 as 17h com transmissão ao vivo pelo Showlivre.com, fiquem ligados!

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Postado originalmente em 09/08/2019 em Estúdio Showlivre
'Música rápida para pessoas apressadas' é o terceiro álbum da banda de punk rock/hardcore Nem Tosco Todo e as Crianças Sem Futuro, projeto paralelo do vocalista da banda Cama de Jornal

'Música rápida para pessoas apressadas' é o terceiro álbum da banda Nem Tosco Todo e as Crianças Sem Futuro: Ed Goma (bateria), Christian Bernardis (Guitarra), Nem Tosco Todo (Voz e letras) e Filipe Gomes. Foto: Christian Benardis/Autorretrato/Divulgação
Devana Babu*

"Não gosto de celular. Não gosto de estar no meio da rua conversando uma coisa pessoal no meio de todo mundo”, diz, ao telefone, o mesmo cara que escreveu os versos "Eu queria que alguém me ligasse/ Pra conversar qualquer assunto fútil/ Eu queria que alguém me ligasse/ Pra eu não me achar um cara inútil. Quem liga, quem liga. Quem liga”. 

Nem Tosco Todo, músico e fotógrafo de Vitória da Conquista (BA), se defende da aparente contradição entre sua vida e obra afirmando que a música não é autobiográfica, mas apenas uma observação sobre o cotidiano: "Engraçado que eu nem tinha telefone. Quem me deu foi minha irmã, mas eu nem uso". Quem liga, quarta faixa do álbum Música rápida para pessoas apressadas, dura apenas 36 segundos. As outras nove músicas do álbum, juntas, dão pouco mais de cinco minutos.


"Eu vi um filme, ou um documentário — não lembro, até pelo tanto de informação a gente recebe —, aí o cara falou que o ser humano só ia ter 5 minutos livres por dia. Eu parei pra pensar que, realmente, a gente tem muito pouco tempo pra ficar de boa, ler um livro, escutar um som. Aí decidi gravar um disco de cinco minutos pra todo mundo ouvir, que aí o cara não vai poder falar 'pô, tô corrido'", explica o compositor. 

Em 25 de janeiro, Nem e seus comparsas começaram a discutir o projeto. Em 4 de julho, entraram no estúdio Drummond e gravaram tudo ao vivo, em quatro horas, depois de apenas dois ensaios acústicos na casa de Nem. Em 13 de julho, o disco estava no ar. “Fiz seis letras em um dia, depois mais duas, os caras fizeram outras duas e deu 10”, contabiliza o vocalista, e explica o processo criativo: "Eu faço as letras, mando pra galera botar as notas, eles me mandam de volta e eu tento encaixar as letras na nota que eles mandaram".

Nem é autor da fotografia da capa, fez a diagramação e até a mixagem das faixas. "Se fosse pagar, tem a questão do dinheiro e do tempo que o cara ia demorar, muito mais do que eu quero. Eu queria uma coisa mais apressada". Para completar o apressado ciclo do projeto, Nem filmou, editou e publicou nesta terça-feira (16/7) um lyric vídeo com as letras de todas as músicas, o que dá 5 minutos e 20 segundos de duração.

No vídeo, os membros da banda aparecem em locais movimentados da cidade enquanto as pessoas, apressadas, caminham para trás. "São imagens da cidade, a gente andando, tomando uma pelo Ceasa. Botei, no vídeo, o pessoal andando ao contrário, tipo, a sociedade tá andando pra trás, as pessoas passando e a gente parado, observendo o movimento e vendo que tá tudo errado”, descreve o produtor, que já deu aulas de edição de vídeo em escolas públicas.


Cama de Jornal

Nem Tosco Todo e as Crianças Sem Futuro é um projeto solo, e paralelo, de Nem. O projeto principal é a banda Cama de Jornal, fundada em 2001, que circulou pelo Brasil e alcançou reconhecimento no underground nacional. Em 2014, o vocalista reuniu alguns músicos para gravar um álbum tributo com clássicos do cancioneiro punk de que gostava. Em 2018, saiu o primeiro álbum de inéditas, e em 2019, o trabalho mais recente. 

"O projeto não era nem ter uma banda fixa. Se você tem uma banda fixa, sempre tá dependendo de alguém pra viajar, pra gravar. Do outro jeito, se precisar viajar sem algum dos integrantes, a gente vai". Apesar disso, Ed Goma (bateria), Christian Benardis (guitarra) e Filipe Gomes (baixo) estão firmes na formação mais recente do grupo. "O projeto é meu, mas eu sempre consulto os caras. Às vezes você faz uma parada, acha massa, mas está uma porcaria”, conta Nem. 

Além da banda, Nem possui também um selo e um blog, que divulgam a cena underground, e tem uma autobiografia, que é também uma história sobre a cena, no prelo, esperando apenas o aval do patrocinador para se publicado.

Poucos dias depois do lançamento do álbum, Nem já consegue fazer um balanço do resultado da estratégia do disco: "Você sabia que, mesmo sendo um disco de cinco minutos, as pessoas não escutam até o final? No Bancamp é possível ver estatísticas de quem ouve o álbum ou uma faixa até o fim. Um monte gente não escuta, só escuta a metade". 

*Estagiário sob supervisão de Adriana Izel

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Publicado originalmente em 17/07/2019 em Correio Braziliense

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