Joe Malfs, pseudônimo do cantor, compositor, pesquisador e produtor Plácido Mendes, mais conhecido por seu trabalho musical autoral "Distintivo Blue" (onde também utiliza o pseudônimo "I. Malförea"), estreia seu novo projeto, Orgânico, na Sala Angelina Timóteo de Oliveira, executando a canção autoral "O Andarilho" no formato voz e violão.
De forte carga emocional, a letra trata da dura realidade enfrentada pelos animais de rua, expressada no ano passado através do lyric video [ https://youtu.be/WZdng7ycI4U ] produzido em casa, com todos os instrumentos e o processo de gravação, mixagem, masterização e produção do fonograma e do vídeo executados pelo autor, contando com a colaboração de fãs, que enviaram vídeos de animais para integrarem a obra. A pandemia forçou o artista a produzir suas próprias canções solitariamente, utilizando os recursos disponíveis.
Neste novo vídeo, experimenta o formato minimalista, num cenário especial: a Sala Angelina Timóteo de Oliveira, batizada em homenagem à sua avó que, assim como centenas de idosos, sofreu com o isolamento causado pela pandemia iniciada em 2020 e faleceu em 5 de outubro de 2022.
O Andarilho é o vídeo de estreia deste projeto há muito pensado pelo artista, que planeja desenvolver diversos conteúdos musicais no espaço, inclusive incluindo outros artistas locais.
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O vídeo foi gravado em 7 de agosto de 2021 para o I Edital de Premiação Arte e Cultura da Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista-BA e, conforme as suas especificações, manteve-se à disposição para uso exclusivo pelo Poder Público pelo prazo de 1 ano após o recebimento da premiação.
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O ANDARILHO
(I. Malförea}
Noite escura
Vento e chuva
A rua sem ninguém
Não devia estar só
Mas podia ser pior
Esperar quem não vem
Todo um mundo girando
Falando, sorrindo, cantando
E ele sempre só
Já cansou de chorar
E é difícil sorrir
Desistiu de amar
É mais fácil fugir
Madrugada
Alvorada
Até o pôr-do-sol
Não devia estar só
Mas é até melhor
Depois do que passou
Todos passam olhando
Censurando ou ignorando
Mas sente, como nós
Não adianta chorar
Ninguém vai acudir
Não merece um olhar
Nem devia existir
Não tem alma
Nem vale nada
Consigo apenas dor
Não devia estar só
O mundo é bem melhor
Pra todos nasce o sol
Uma mão se estendendo
Um abraço apertado
Um sonho, ou algo assim
Eu te ouvi chorar
Então vim até aqui
Chega deste lugar
A dor chegou ao fim
Completando, no primeiro trimestre de 2022, dez anos, 2012, Miopia continua sendo uma das nossas mais importantes canções, sempre pedida por fãs e ainda recebendo comentários no YouTube e outras plataformas, em muito se devendo a elementos na letra que seguiram se repetindo até hoje, sobretudo na sociedade brasileira, o que não era a minha intenção quando a compus: a ideia de uma música chamada 2012, Miopia era ser propositadamente datada, como uma espécie de "fotografia sonora" dos acontecimentos que mais me chamaram a atenção naquele momento.
Penso que, para analisar profundamente esta canção, devo abordar pelo menos quatro aspectos: 1) a letra em si; 2) o processo de criação musical junto à banda e sua inserção ao nosso repertório 3) a produção do fonograma e 4) a repercussão junto ao público. Neste texto, tentarei abordar todos, mas não me debruçando tanto sobre o item 1, que ganhará um texto próprio, separadamente, ao estilo destrinchando letras, com uma análise verso a verso.
A COMPOSIÇÃO
Não me recordo bem o que me levou a escrever essa letra. Mas algumas coisas, como a ideia de miopia social me soou interessante, quando estudava direito previdenciário para concursos públicos: um dos professores das dezenas de videoaulas que conseguia, explicando a natureza contributiva compulsória da Previdência brasileira, dizia algo do tipo: "o Estado obriga as pessoas a contribuírem com a Previdência porque elas sofrem de uma miopia social, ou seja: se deixar que elas guardem dinheiro por conta própria, para sua aposentadoria, pensarão sempre no curto prazo, gastarão tudo e ficarão desamparadas na velhice, sem condições mínimas de sobrevivência". Não vem ao caso discutir sobre isso. O fato é que aquele conceito ficou na minha cabeça, e passei a prestar atenção a outros aspectos da vida onde seria possível aplicá-lo, sobretudo quando pensava em mídia, mercado do entretenimento, educação, alienação, etc. O tal pão-e-circo, que todos conhecemos ainda na escola.
A Distintivo Blue ainda era uma jovem banda, buscando seu estilo e tentando defini-lo principalmente através de novas composições. Tínhamos lançado nosso primeiro EP, Aplicando a Lei, no ano anterior, que foi uma verdadeira colcha de retalhos, com gravações feitas em vários momentos diferentes, e com formações diferentes. Luar do Pontal foi um experimento com uma antiga letra que eu havia composto alguns anos antes. De Cara no Blues era da mesma época, e era a primeira faixa autoral da The New Old Jam, banda de rock setentista que eu participava com Rômulo Fonseca e Camilo Oliveira. Você Roubou o Meu Pendrive era uma tiração de sarro em resposta a alguns comentários que nos apontavam como uma banda séria demais. Cada uma dessas, gravada num estúdio diferente, com pessoas diferentes.
A banda buscava seriamente uma estabilidade em relação a integrantes. Era um verdadeiro pé no saco fazer testes e esperar que novas pessoas pegassem o ritmo da banda partindo do zero a todo instante. Chegamos a um ponto interessante, comigo, Rômulo Fonseca, Camilo Oliveira [os três fundadores da banda], mais Rodrigo Bispo no Baixo, no baixo e uma epopeia para achar um baterista fixo. Nessa configuração, fizemos quase um ano inteiro de shows sem baterista, quando me propus a tentar cantar e tocar cajón ao mesmo tempo. Entramos em estúdio para gravar nosso segundo EP, Riffs, Shuffles, Rock n' Roll. Já havíamos lançado Missing My Baby como single, gravado no estúdio de Thomaz Oliveira, onde gravamos Pendrive. Fator importantíssimo nesse cenário: grana para gravar era MUITO difícil. O esforço era gigantesco para chegar ao ponto de entrar em estúdio. E claro, baixo orçamento significa gravações não tão boas, e temos plena consciência de que não temos gravações maravilhosas em toda a nossa discografia.
Assim, em fevereiro de 2012 comecei a escrever a letra. Lembro que o "eu vejo que tudo está no fim" foi o pontapé inicial: chegou à minha mente do nada, e eu escrevi. O clima em toda a Bahia era de tensão com a "greve" dos policiais militares, que nos deixou, pela primeira vez, em uma situação semelhante à que vivemos desde 2020: lockdown, com o comércio todo fechado, por medo de assaltos. Durante alguns dias, a cidade parou de verdade. De casa, cheguei a ouvir barulhos de tiros, e isso não era comum por lá. Na TV, passava o já tradicional Big Brother Brasil 12, que virou notícia depois de um suposto caso de estupro dentro da casa. Me chamou a atenção ver um telejornal da TV Record, declarada inimiga da Globo, falando de BBB. Em todo lugar se falava de BBB, aliás. Eu tinha um e-mail no Yahoo! e me incomodava muito acessar a página inicial da plataforma e ver, nos destaques, uma atenção enorme ao reality show enquanto coisas realmente importantes aconteciam no Brasil e no exterior, como o nosso lockdown aqui na Bahia.
Questões como a construção da usina de Belo Monte, no Pará, e seus gigantescos impactos ambientais, além do abominável acontecido no Espírito Santo, de um empresário que ateou fogo a um morador de rua também faziam parte do nosso cotidiano. Em meio a isso, lembrei de, anos antes, uma onda de calor na Europa que matou dezenas de pessoas, sem falar, é claro, do desabamento de um prédio no Rio de Janeiro, que chocou o país. Muita coisa acontecia e eu me lembrava das antigas aulas de Atualidades na escola, uma disciplina que unia geografia e história, mas abordando questões mais contemporâneas. Pensei em escrever uma letra que poderia ser utilizada numa aula dessa disciplina, para se referir àquele primeiro trimestre de 2012.
A letra, então, trata de tudo isso, mais alguns pensamentos pessoais, como a violência contra animais - que abordo, direta ou indiretamente, em outras letras, como Blues do Covarde e O Andarilho -, políticas de educação, egoísmo, hipocrisia e a própria miopia social, na parte do "pensar no presente, que é o que dá pra ver", e o meu incômodo com as escolhas da imprensa sobre o que é e o que não é realmente importante, repetida em todos os refrões: "o mundo pega fogo e só se fala em Big Brother Brasil". Bom, isso não mudou e nem demonstra sinais de que mudará, em pleno 2022. Até quando esse programa será exibido? E quando parar, que tipo de porcaria o substituirá? Nem preciso falar sobre a nova postura da emissora, que é dar seguimento ao seu projeto de alienação ideológica também através dos participantes do reality, de forma direta e aberta, ao contrário de outros tempos, onde se fingia uma imparcialidade de imprensa e se enfiava goela abaixo seus interesses sob um disfarce ou em doses homeopáticas. Bem, também não vamos nos alongar nesse tema. Se você chegou até aqui, provavelmente é capaz de analisar as coisas por conta própria.
Recorte do manuscrito original. Note que cada trecho foi escrito num momento diferente, com poucas correções.
Compus a parte musical no baixolão. O tema principal, bastante comum no blues, é uma referência a um dos meus ídolos no gênero, John Lee Hooker, que tocava sua guitarra de forma bastante peculiar e autêntica, às vezes soando até mesmo como primitiva. Sem dúvidas, uma das minhas grandes influências no blues, e basta me escutar tocando guitarra um pouco para perceber essa influência. Sem dúvidas, se eu precisasse resumir o blues em uma só pessoa, com certeza seria aquele velhinho estiloso, de óculos escuros, meias bandeirosas, terno, chapéu e sua guitarra, tocada de forma tão peculiar que é facilmente reconhecível, bem como sua voz bonita, como a de um locutor, mas com o feeling de quem passou por poucas e boas para fazer sua música acontecer. Esta foi uma canção composta sem grandes dificuldades. à época, eu não tocava violão ou baixo publicamente, mas tinha os instrumentos em casa e usava para compor. Nunca fui um bom instrumentista, mas considero ter bons ouvidos e uma mente criativa. No conforto da privacidade, conseguia materializar minhas composições e captá-las com um gravador, celular ou computador. A melodia surgiu naturalmente, à medida em que a letra ia surgindo. Como dizem, é como se uma entidade "baixasse" e fizesse todo o trabalho de criação.
Eu tinha, como referência estética, a faixa Bank Robbery, com John Lee Hooker e Miles Davis, um instrumental cheio de improviso que faz parte da trilha sonora do filme The Hot Spot [1990]. Durante toda a primeira década de 2000, vivemos a era dos downloads de MP3. Buscando por álbuns de blues naquelas comunidades do Orkut, cheguei, em algum momento, a essa trilha. Em Vitória da Conquista, minha cidade, era difícil comprar um disco de blues: as lojas simplesmente não tinham esse tipo de música em suas prateleiras, salvo raríssimas exceções. Então, a partir de 2002, comecei uma longa jornada pela internet para descobrir artistas e suas obras. Assim conheci John Lee Hooker. Nunca assisti ao filme, mas essa faixa em especial, se tornou uma das minhas favoritas. Pensava: "eu gostaria de ter gravado essa música". A guitarra características do mestre, que também solta alguns sussuros, a bateria reta, sem firulas, o baixo idem, e o trompete com surdina às vezes até beirando a desafinação executado pelo mestre Miles Davis me encantavam toda vez em que eu escutava a faixa. Ao perceber que a minha nova música combinava com aquela atmosfera, fixei a ideia de que deveria soar de forma semelhante quando fosse tocada ao vivo e, especialmente, na gravação de estúdio. Mostrei à banda e começamos a tocar.
TOCANDO COM A BANDA
Na banda, como eu não tinha confiança suficiente para pegar um violão e simplesmente tocar e cantar uma música nova para mostrar ao pessoal, eu fazia gravações, em casa, de como deveria ser, basicamente, cada nova composição. Assim foi com Miopia. Gravei o baixo, mixei com uma voz e mandei para a banda. Depois, era só ir falando dos detalhes durante os ensaios até chegar próximo ao que eu tinha em mente. Lembro de que deu um certo trabalho até que Rodrigo mentalizasse a parte do solo e tocasse sem errar. Na prática, era só mentalizar a letra cantada, mas sempre dava problema. Então, passei a fazer vocalizações para orientá-lo enquanto Rômulo e Camilo se viravam com suas guitarras. Eu compus a base, o riff principal, a melodia, mas não me preocupei com arranjos e solos. Isso se deu por conta deles. Geralmente, Rômulo ajudava Rodrigo a criar suas frases também. Eu sempre tinha o hábito de gravar os ensaios, para detectar erros e consertá-los e para o caso de surgir alguma nova e boa ideia, como aconteceu com Doze Horas, em 2014 [farei um post como este a respeito, no futuro].
Uma das gravações pareceu suficiente para que cada um trabalhasse em casa em seus próprios arranjos e na fixação. Foi quando surgiram as inscrições para o X Festival de Música da Bahia - FMB, que seria realizado no Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima. Eu confiava na nossa nova música e tinha até orgulho da letra que havia conseguido compor, mas era necessário o envio de uma gravação em áudio, além da letra, para a inscrição. Decidi usar a gravação que usamos como guia. Eu gosto muito desse áudio até hoje. Muitos equívocos e deslizes, mas conseguiu traduzir bem o feeling que eu desejava para ela. Enviamos. Por incrível que pareça, foi aceito e nós tocamos a nova faixa da Distintivo Blue frente a um júri e a uma plateia aberta ao novo. Chamamos o trompetista Daniel Novaes, que já havia trabalhado conosco em todas as faixas com metais lançadas até então. Ele deveria ser o Miles Davis em Bank Robbery, com sua surdina metálica.
A gravação-guia, que usamos para amadurecer a composição e participar do Festival, gravada num tablet.
Nunca me iludi de que chegaríamos à final daquele festival: todo músico sabe que esse tipo de competição foi feita para a MPB, e o blues, um estranho no ninho, dificilmente iria longe. Por isso, encarei aquela apresentação como uma forma de divulgar o trabalho. Imprimi algumas dezenas de edições da BLUEZinada! contendo mais detalhes sobre a música e a banda [Confira AQUI], cheguei um pouco mais cedo e coloquei em cada assento da plateia. Eu nem sabia de cor toda a letra naquele momento, e nem Rodrigo ainda havia resolvido seu problema da hora do solo. Mas fomos mesmo assim: coloquei uma "cola" no chão e, na hora do solo, fiquei perto de Rodrigo, fazendo as vocalizações fora do alcance do microfone. Foi uma bela experiência, mas não passamos daquela fase, logo, não chegamos à etapa em que os participantes começavam a receber alguma quantia em dinheiro, que seria extremamente útil para gravarmos nosso próximo EP. Vida que segue. A música continua viva até hoje, o festival não. Nesse mesmo ano, Na Trilha do Blues também seria classificada para o X Festival de Música da Educadora FM, em Salvador, mas também não passou da primeira fase. Pelo menos, foi tocada na rádio da capital algumas vezes, e isso é o que nos interessava àquele momento.
A GRAVAÇÃO
Apesar de a música ter nascido e se referir ao ano de 2012, ela apenas seria lançada um ano depois. Isso se deu por uma série de dificuldades enfrentadas pela banda àquele ano. Assim como era muito difícil manter uma formação estável, não percebíamos apoio por parte do público e contratantes da cidade. Na verdade, a impressão que tínhamos era a de que nossa cidade nos valorizava muito menos que outras, que jamais chegamos a conhecer. Queríamos nosso lugar enquanto banda de blues brasileira, mas o próprio blues brasileiro traz seus problemas, especialmente ligados à desunião e desorganização dos músicos, bem como o simples fato de ser, o blues, uma espécie de "alternativo do alternativo": enquanto o rock mantém suas cenas locais contornando dificuldades, mas resistindo com bravura - e este foi o cenário onde nascemos, na cena rock da nossa cidade - a cena do blues nos parecia preguiçosa e desinteressada, causando-nos grande estranhamento.
Mesmo iniciativas de fomento, como a nossa BLUEZinada! não eram suficientes para despertar as pessoas para a existência de um grande conjunto de bandas com músicos muito talentosos precisando de alguns empurrõezinhos para fazerem acontecer. O estopim para decidirmos acabar com a banda, ao final de 2012, foi um edital para um evento promovido pela prefeitura municipal, que dizia valorizar e priorizar a música autoral, mas ficamos de fora enquanto víamos bandas cover mais bem "articuladas politicamente" sendo contempladas. Precisávamos desse tipo de evento, que pagava melhor que qualquer bar, para viabilizar nossas gravações, e esse tipo de coisa nos deixava muito frustrados.
Nosso show no II Festival Suíça Bahiana [2011], com público recorde e horário privilegiado.
Ao final de 2011, tocamos em um grande festival independente local, chamado Festival Suíça Bahiana, do Coletivo Suíça Bahiana, do Circuito Fora do Eixo, grande máquina de fazer eventos à época, que contou com diversas bandas locais, mas também de nível nacional, como Ratos de Porão e Emicida. Tocaram todos nos mesmos dois palcos, montados lado a lado, com estrutura semelhante. Nosso show foi o primeiro do último dia, um domingo, no fim da tarde. Com um sol escaldante na cara e um público quase inexistente, fizemos nosso show.
Era comum, aliás, nesses shows promovidos pelo Fora do Eixo, que ficássemos sempre com os piores horários. Foi assim no Grito Rock 2010, que tocamos no mesmo palco do Centro de Cultura que apresentaríamos 2012, Miopia em 2012 (e ocuparíamos por todo o ano de 2015 e 2016 com ensaios e gravações), mas com um público que se poderia contar nos dedos, e nas Noites Fora do Eixo, onde uma banda local se apresentava antes, e uma banda de fora depois. A banda que se apresentava primeiro sempre tocava para um público pequeno, "esquentando os motores" para a banda de fora, encarada como principal. Isso nos incomodava muito. Fizemos nosso trabalho nesse dia e tocamos em um espaço gigantesco para um punhado de pessoas. Horas mais tarde, aquele mesmo espaço estaria lotado. Não entendíamos o porquê de sempre ficarmos com esses horários. Passamos a duvidar da qualidade do nosso trabalho. talvez nós fôssemos, simplesmente, uma banda ruim, incapaz de gerar algum engajamento.
Certa vez, resolvemos comprovar essa teoria. Para uma Noite Fora do Eixo com a banda Mendigos Blues, de Itabuna-BA, exigimos do produtor, a inversão de papéis: só tocaríamos se, ao invés de sermos a primeira banda, fôssemos a última. Assim, caso a banda de fora fosse realmente a atração principal, seu público viria mais cedo e a prestigiaria, e nos abandonaria em seguida. O resultado foi que os colegas de Itabuna experimentaram nossa frustração de todas as vezes anteriores, ao fazer um show para pouquíssimas pessoas e, na nossa vez, fizemos uma das melhores apresentações desde a formação da banda, com uma ótima participação do público. Nossa tese de que não seríamos capazes de fazer um bom show e conquistar o público foi derrubada: o problema era realmente uma espécie de boicote ao nosso trabalho. Sempre ficávamos com horários ruins para que fossem privilegiadas outras bandas, de forma proposital.
Nosso show no Festival Suíça Bahiana de 2011 foi difícil e nos rendeu alguns constrangimentos. Não tínhamos baterista, então contratamos Diego Oliveira, um grande músico e produtor local, atualmente conhecido por seu projeto folk chamado Benjamin, e também engenheiro de som em nossas faixas Luar do Pontal, Blues do Covarde e De Cara no Blues, sendo, também, o baterista nestas duas. Ele assumiu as baquetas neste show e em uma Noite Fora do Eixo, onde gravamos a versão bootleg de Luar do Pontal, publicada como faixa-bônus no EP Riffs, Shuffles, Rock n' Roll (2012). Não tínhamos dinheiro para pagar seu cachê, então, contávamos com o pagamento pelo show do festival para pagá-lo e usar o restante para entrar em estúdio. O fato é que não recebemos o pagamento. Meses se passaram, e Diego, com razão - afinal, ele precisava ser remunerado pelo serviço como um músico contratado, e não como um membro da banda, que recebia calotes - já havia demonstrado sua insatisfação.
Durante algumas vezes, o Coletivo nos dava a mesma resposta: "não temos dinheiro para pagá-los agora". Cheguei a me reunir com membros de outras bandas locais que também se apresentaram no festival para discutir alguma forma de sermos pagos. Não deu muito certo e não saíamos do lugar. Foi quanto tive uma ideia, ao perceber que o Coletivo mantinha uma espécie de parceria com o Estúdio Drummond, onde gravamos Na Trilha do Blues, My Business Blues e O Álcool Me Persegue anteriormente. Entramos em contato perguntando o valor da gravação por faixa. R$500,00 era o valor à época. Exatamente o valor do cachê que batalhávamos para receber pela apresentação no festival. Decidimos ir ao escritório do Coletivo mais uma vez, com a intenção de cobrar e, caso recebêssemos mais uma negativa, apresentar um plano alternativo: fazer uma permuta com o estúdio para gravar 2012, Miopia.
Entramos ao escritório como membros da família Corleone: enfileirados, mal-encarados e fechamos a porta para conversar. Aconteceu o que prevíamos: o plano B foi aceito e, dias depois, fomos contatados pelo estúdio para nos avisar que tínhamos o crédito de gravação de uma faixa. Entramos em estúdio, então. Nesse ponto, já contávamos com Weslei Lima (Corega) como baterista fixo, e a música já estava suficientemente amadurecida para gravar. Chamamos Daniel Novaes mais uma vez para gravar os trompetes, e Chico Novais (sax) e Paulinho do Trombone para fazerem unicamente a nota final da música. Em geral, considero o resultado como uma boa gravação. Ainda não seria dessa vez que eu conseguiria transmitir exatamente o que tinha em mente para a banda, mas, escutando hoje, ainda considero uma das melhores que já gravamos. Os detalhes de bumbo e caixa que são simples, mas quando não observados, fazem a música perder expressividade, foram registrados e o riff não perdeu muito do feeling que eu imaginava.
Lançamos a música como um "compacto" à moda antiga, ou seja: lado A com 2012, Miopia e lado B com Pendrive (karaoke-joes), que eu mesmo produzi em casa, com as pistas de Você Roubou o Meu Pendrive. Como eu considero todas as vozes da nossa discografia ruins, fazer versões instrumentais acabou sendo até uma forma de escutar as músicas sem me contorcer de agonia. Isso se deve muito porque eu ainda não havia descoberto a afinação ideal para a minha voz, que é a bemol, como fez Stevie Ray Vaughan. Sobre isto, falarei melhor posteriormente. A capa do single contém uma foto de um show da banda em 2010, no Viela Sebo-Café, obviamente, "embaçada", como enxerga o mundo alguém que, como eu, sofre de miopia.
A REPERCUSSÃO
Por ter uma letra crítica e direta, citando nomes e pouco otimista, e um instrumental "reto" e simples, considero 2012, Miopia um legítimo "punk-blues" brasileiro. A recepção do fonograma foi interessante: não houve um "oba-oba" de imediato, mas doses "homeopáticas" de reação, que duram até hoje. Conseguimos fazer com que tocasse em algumas rádios universitárias e programas independentes pelo Brasil. Nesta época, nosso ativismo pelo que chamo de BRBlues (o blues autoral brasileiro, cantado em português) estava indo bem, apesar de a banda ainda estar, tecnicamente, encerrada, como citei anteriormente. Só retornaríamos ao final de 2013, em um show na Casa do Rock, em Vitória da Conquista, para só se desmembrar novamente em 2017.
Desde o lançamento, curiosamente, muitos elementos da letra se repetiram, por diversas vezes. A "greve" da Polícia Militar da Bahia de 2012 também aconteceu posteriormente em outros estados, como o Ceará e Espírito Santo. O BBB continua firme e forte, inclusive sendo o programa mais rentável da emissora. Problemas ambientais, violência contra animais, moradores de rua, desabamentos... Tudo isso continua acontecendo. O curioso é que, por algum motivo, coisas assim costumam ganhar maior projeção justamente no primeiro trimestre do ano, quando as notícias dividem espaço com o reality show.
O lyric video de 2012, Miopia, lançado em 2016.
Em 2016, lançamos um lyric video produzido sob encomenda por Thomaz Oliveira, parceiro de longa data. A minha ideia para ele foi, basicamente: "aqui está a nossa arte. faça agora a sua arte sobre ela". Assim, não interferi muito na produção do vídeo: apenas forneci bastante material gráfico, a letra e outras informações para que ele deixasse a imaginação fluir à vontade. O espaço de comentários do vídeo no YouTube continua recebendo mensagens das pessoas até hoje, e funciona como nosso melhor termômetro. Uma música que foi composta com a intenção de ser datada tornou-se atemporal, quem diria... Vale a pena acessar o vídeo diretamente em sua plataforma e dar uma lida nos comentários.
Seria hipocrisia de minha parte se dissesse que não sinto orgulho por ter criado essa música, cuja letra já foi publicada em um livro produzido pelo Clube Caiubi de Compositores e no jornal do Centro Acadêmico do curso de Direito da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. Também houve banda fazendo cover por aí, o que nos honra muito. Desde o ano passado venho trabalhando em uma nova canção, como uma espécie de "continuação" da história, inspirado por inúmeros pedidos de uma nova letra. Por incrível que pareça, a partir de 2020, tivemos até mesmo um "[...] não temos saúde, trancados em casa, sem ter quem nos ajude" que também chamou a atenção das pessoas quarentenadas. A nova música chama-se 2021, Miopia, alterando-se apenas a disposição dos números, e será lançada em meu projeto solo, Joe Malfs Clan, com um instrumental também em homenagem a um mestre do blues. Aguarde novidades.
Esta é a história por trás da nossa faixa 2012, Miopia. Sentiu falta de algum detalhe que não foi esclarecido? Escreva nos comentários e atualizaremos o texto.
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Publicado originalmente em 25/02/2021, em Distintivo Blue - Site Oficial.

Começaram as inscrições para o Grito Rock, aquele evento em que as bandas devem meter o pé na estrada pra tocar de graça (leia-se pagar para tocar, porque não existe viagem gratuita, muito menos um trabalho sério sem custos) enquanto os organizadores cobram ingresso ao público e enriquecem seu próprio currículo. A promessa é a de sempre: "mostrar o trabalho".
Eu mesmo já caí nessa muitas vezes (vide diploma anexo). Não mais...
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Publicado originalmente em 10/03/2015, no Facebook.
A história oral como instrumento de pesquisa em memória coletiva na cena rock de Vitória da Conquista-BA (capítulo 2)
Autores:
Plácido Oliveira Mendes
Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia / Memória Musical do Sudoeste da Bahia
Vitória da Conquista – Bahia
Felipe Eduardo Ferreira Marta
Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia / Universidade Estadual de Santa Cruz
Vitória da Conquista – Bahia
O presente estudo objetiva fundamentar o uso da história oral como instrumento prático de pesquisa e preservação da memória no contexto do estudo acerca da memória do rock autoral de Vitória da Conquista-BA entre 2000 e 2019, em andamento junto ao Programa de Pós-Graduação em Memória: Linguagem e Sociedade da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB). A história oral não deve ser confundida com outras formas de captação do pensamento humano. Seu processo consiste em provocar, no entrevistado, o esforço da recordação, onde a memória é externada através da linguagem, capturada pelas ferramentas tecnológicas e convertida à linguagem escrita, tornando-a documento histórico representativo de uma abordagem do passado realizada no tempo presente. Cada uma das três categorias de história oral é capaz de evocar diferentes aspectos e contextos da memória. Dessa forma, constitui-se, a história oral, importante instrumento de combate ao esquecimento ou de justificação de determinados esquecimentos, revelando-se grande contribuição ao estudo de cenas musicais de rock independente.
Livro completo: A cultura em uma perspectiva multidisciplinar
Publicado em 07 de fevereiro de 2022.
A obra intitulada “A cultura em uma perspectiva multidisciplinar” tem como foco principal a discussão científica, a partir da integração entre conhecimentos que subjazem as produções escritas, em áreas distintas. O volume aborda de forma categorizada e interdisciplinar trabalhos que versem sobre a cultura, em contexto com a experiência e formação humana, entre outros temas materializados em pesquisas, relatos de casos e revisões que perpassam seus diferentes percursos, em diálogo com o contexto atual.
Tem como objetivo central trazer à tona questões acerca da cultura, em uma perspectiva multidisciplinar, onde o ser humano é o elemento central de reflexões e ações que se delineiam, ao longo dos vários capítulos. Constitui-se assim, o resultado de iniciativas individuais e coletivas, que abordam temas variados, que perpassam a geografia poética e os devaneios da floresta pandina boliviana, a preservação da memória do rock autoral; a relação da cultura do consumo com a degradação ambiental; o trabalho com as culturas lúdicas, no contexto da alfabetização, no ensino remoto; a Arquitetura e a Poesia Islâmica enquanto artes do mundo muçulmano, responsáveis pelo desenvolvimento de um tipo da música que constitui o Tarab.
Enfoca também, os atravessamentos, afetamentos e as desconstruções que emergem do convívio com estudantes indígenas na graduação e pós-graduação, bem como a falsa consciência, as deformações imaginárias e o cinismo, na ideologia do bolsonarismo; focaliza ainda, a superação de uma crise de paradigmas, enquanto estratégia organizada, por meio de um projeto político pedagógico, baseado na interculturalidade e interdisciplinaridade, para atingir uma autonomia e combater o conservadorismo estatal.
Não menos importante, a fim de que se compreenda as ressignificações e resistências inscritas nos modos de ser jovem, em territórios estigmatizados, traz narrativas e experiências de sujeitos artivistas, assim como, a contribuição, cooperação e a organização para o enfrentamento das desigualdades sociais e de gênero, a partir da articulação em redes de solidariedades, voltadas ao empoderamento feminino; apresenta também, a compreensão do ser humano como alguém participante do Deus encarnado, descrevendo ainda, o percurso de uma oficina de artes, em modo remoto, voltada para acadêmicos da educação profissional e tecnológica, no contexto de um projeto de ensino.
A obra “A cultura em uma perspectiva multidisciplinar” se materializa, pois, enquanto esforço e iniciativa da Atena Editora, na divulgação da produção científica de diferentes áreas, entre estas, a cultura, por meio de sua plataforma consolidada e confiável, oportunizando a socialização da temática, que se mostra enquanto valor intrínseco à vida humana.
Heridan de Jesus Guterres Pavão Ferreira
Neste EP gravado no Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima, o artista apresenta covers e uma canção autoral, no formato mais simples e direto possível: voz e violão, com o mínimo de edição, para transmitir a musicalidade de forma orgânica.
Ficha Técnica:
JayVee - CCCJL Sessions #01
Gravado em março de 2017 no Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima
Jayvee1st - voz, violão
I. Malförea - câmera, áudio, edição e produção
Agradecimentos ao Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima
SETLIST:
00:00 - Autoapresentação
01:29 - Suspicious Minds (Mark James)
05:07 - Take Me Home, Country Roads (Bill Danoff, Taffy Nivert, John Denver)
08:20 - No Woman, No Cry (Vincent Ford, Bob Marley)
11:32 - Self-presentation
13:19 - Singing Rock n' Roll (JayVee)
OUÇA O EP COMPLETO:
No dia 8 de novembro, saiu o episódio #8 do Podcast do Moss do Som, com o título: Os livros de história não vão te contar isso daqui!. O convidado da vez fui eu mesmo, Plácido O. Mendes (I. Malförea). Nestes quase 60 minutos de bate-papo, contei um pouco da minha pesquisa sobre a música regional realizado aqui no site, bem como a pesquisa direcionada à cena rock conquistense, que desenvolvo junto à Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, através do Programa de Pós-Graduação em Memória: Linguagem e Sociedade e a FAPESB.
Lançado oficialmente em 02 de julho de 2021, o Podcast do Moss do Som aborda questões relacionadas à música do ponto de vista local. O formato de entrevistas sem cortes, sendo paralelamente lançado em áudio através do feed e em vídeo através do YouTube, bastante característico do período, possibilita registros valiosos de importantes personagens da música regional, incluindo músicos, produtores, radialistas, etc. A gravação é realizada presencialmente em Vitória da Conquista, no Estúdio Drakkar, sob o comando do produtor e músico Robson Falcão. O feed é hospedado pelo serviço gratuito de podcasting do Spotify, o Achor. Os episódios são publicados sempre às segundas feiras, 11h em áudio, e às 20h em vídeo.
Em resumo, o porquê de o rock independente ser morto todos os dias não pela imprensa, o mainstream, o destino, os aliens, os espíritos dos natais passados, ou qualquer outra coisa, e sim pelo próprio PÚBLICO.
Ex.: O primeiro show da Distintivo Blue, em 22 de janeiro de 2010, tinha entrada de caríssimos R$4,00 (QUATRO Reais), e teve gente reclamando na portaria. "Como pode um espaço cultural cobrar entrada?" foi uma das frases que ouvi.
Cultura e arte, apesar de às vezes parecerem coisas divinas, são coisas BEM terrenas, e não surgem do éter. Surgem do suor, bolso e nervos de profissionais esforçados. Não existe caridade na arte: tudo é custo de serviços e produtos, que são pagos a alguém (Inclusive o MP3 que você prefere procurar pra baixar de graça ao invés de pagar menos de R$10,00 pra baixar do site do próprio artista).
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Publicado originalmente em 12/06/2015, no Facebook.
[Dois homens se apresentando num palco. À esquerda, homem negro com blusa de manga comprida na cor preta e calça jeans toca baixo. Na direita, homem branco de camisa preta com dizeres na cor branca segurando o microfone com as duas mãos. Ele usa óculos escuros e boina.]
Apresentação da banda conquistense Distintivo Blue. (Foto: Acervo do pesquisador)
Por Joana Rocha - 07.06.2021
O conquistense ama música e possui diferentes estilos e gostos musicais. Há quem goste de sertanejo, música eletrônica, MPB, forró, hip hop, axé, música clássica, pop, reggae, blues, regional e tantos outros. Entre outras palavras, podemos afirmar que a joia do sertão baiano é muito eclética. Mas, se tem um tipo musical que também caracteriza Vitória da Conquista é o rock.
O estilo foi escolhido como tema de pesquisa do pesquisador Plácido Oliveira Mendes, estudante do curso de Mestrado em Memória: Linguagem e Sociedade da Uesb. Com um recorte mais próximo de sua realidade, “Memória do Rock Autoral Conquistense (2000-2019): ascensão, declínio e o risco do esquecimento em nome da nostalgia” dá título à pesquisa* que conta as muitas fases do rock na capital do Sudoeste baiano.
Para abordar o assunto, Mendes trabalhou com metodologias diferentes. Segundo o mestrando, “a pesquisa se divide em duas partes, sendo a primeira parte basicamente bibliográfica. Na segunda, realizei 14 entrevistas virtuais com diferentes personagens da cena do rock conquistense, de diferentes categorias: músicos, produtores, técnicos de som, o público, jornalistas, incluindo pessoas que também vivenciaram períodos anteriores ao recorte”, conta.
O autor disse, ainda, que a pesquisa de Mestrado surgiu a partir do projeto Memória Musical do Sudoeste da Bahia, site desenvolvido em 2019, dedicado à preservação da memória da música independente de Vitória da Conquista e região. “A escolha do tema se deu de forma bastante natural: desde a parte inicial do recorte, que eu denomino, à ascensão da cena rock conquistense (primeira metade da década de 2000), quando eu ainda era um jovem estudante de História e começava a frequentar os shows, ensaios e a participar de bandas como vocalista”, lembra.
[Capa do jornal conquistense Cultura Jovem, de Agosto de 2003, em preto e branco com a frase “Galera do rock local vai a luta!”, em destaque no centro. Na esquerda, aparece uma foto de uma banda de rock se apresentando num show lotado de pessoas e à direita a descrição de um texto.]
Jornal de 2003 que destacava o cenário do rock na cidade de Vitória da Conquista. (Foto: Acervo do pesquisador)
Paixão pelo rock autoral – Cantor, compositor, historiador, pesquisador, produtor musical e fundador das bandas conquistenses Distintivo Blue e Joe Malfs Clan, Plácido ou I. Malförea se diz um entusiasta da música autoral. “A música autoral, em minha opinião, é um retrato importante do local, das pessoas e do tempo em que foi composta”. Em 2013, quando percebeu o início do período que denominou de declínio da cena conquistense, o mestrando sentiu a necessidade de continuar se dedicando, ainda mais, aos estudos sobre o gênero musical.
Para ele, “o rock diz muito e, possivelmente, seja o gênero com maior capacidade de se moldar aos inúmeros contextos mundo afora. Por isso, seu silêncio pode significar um ensurdecedor conjunto de fatores passando despercebidos. Para mim, é um grande equívoco ignorar a cena rock de uma cidade pelo simples fato de não se encaixar no rótulo ‘música regional’”.
Em sua pesquisa, o mestrando revela a importância cultural de nomes como Ladrões de Vinil, Cama de Jornal, Liatris, Dona Iracema, ÑRÜ, Distintivo Blue, Renegados, Garboso e outros. Além disso, o estudo destaca grandes artistas pertencentes a um grupo ou a um nicho específico, como “os tradicionais ternos de reis, a genial geração que brilhava nos festivais de música dos anos 80 e 90, a banda da Polícia Militar, as tão inclusivas orquestras, a cena do hip hop conquistense e os artistas de gêneros mais popularescos”.
[Homem sentado e sorrindo em um estúdio de rádio aponta para uma ilustração em sua camisa de cor laranja. À sua volta, estão duas bancadas, microfone, teclado, computador e papeis sobre a bancada da esquerda e, ao lado direito, uma cadeira azul de plástico vazia.]
A pesquisa destaca não só nomes da produção musical de rock, mas também de jornalistas, como Miguel Côrtes (Foto: Acervo do pesquisador)
Impacto sociocultural – Ao reunir os dados históricos sobre o rock conquistense, Plácido Mendes contribui com a memória, muitas vezes esquecida e, até mesmo, nunca apontada para as gerações atuais. No processo de mostrar a ascensão e declínio do rock autoral de Vitória da Conquista, ele manifesta aspectos da própria cultura e evidencia que as pessoas da cena têm interesse em preservar sua memória.
“De certa forma, é como se aguardassem por alguém, um pesquisador, um jornalista, para documentar e externar suas experiências. Isso me deixou, verdadeiramente, feliz por ocupar esse papel neste momento. A minha pesquisa representa uma iniciativa concreta em favor do merecido posicionamento desse grupo social e da sua identidade junto à história cultural da cidade”, explica.
A pesquisa de Plácido Mendes será concluída com a dissertação no Programa de Pós-Graduação em Memória: Linguagem e Sociedade, com previsão de defesa para o primeiro trimestre de 2022.
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Publicado originalmente em 07/06/2021, em Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia.
Joe Malfs Clan é o projeto individual de I. Malförea, cantor, compositor, produtor e pesquisador musical. Fundador da banda Distintivo Blue, sentiu a necessidade de produzir músicas de forma solitária, com suas influências, feeling, timbragens e composições que não caberiam num formato coletivo. Assim, seu clã super-restrito formado por si mesmo e, muito eventualmente, amigos-colaboradores, adotou o lema “faça você mesmo” como norte, produzindo o máximo possível de forma solitária, em casa, com os equipamentos disponíveis, que podem incluir até mesmo utensílios domésticos e sons inusitados, captados frequentemente pelo artista no dia-a-dia.
As músicas são 100% orgânicas, e sem nenhum compromisso com padrões de mercado: "não faço música para os outros, mas para mim. Se coincidir de alguém curtir, é maravilhoso, mas não me importo se a maioria ouvir e achar tosco ou ruim. Aqui é arte em seu estado natural: como uma forma de expressão, e não tenho tempo a perder com detalhes técnicos que atrapalham essa expressão. Meu pouco conhecimento é suficiente para pensar em algo e eternizá-lo sob a forma de um fonograma. A evolução técnica surge naturalmente, movida pela curiosidade e necessidade de se fazer algo que ainda não conheço."
"O Andarilho" é uma canção autoral e inédita, dedicada aos animais de rua. Todos os dias, centenas de animais sofrem abusos e injustiças em nossas cidades. São criaturas completamente inocentes, desprovidas de maldade e sequer da capacidade de pedir socorro ou de denunciar esses abusos.
São vítimas de agressões, atropelamentos, envenenamentos, mutilações, assassinatos, fome, sede, frio e medo, sem despertar a empatia da maioria. São as maiores vítimas do descaso e do desinteresse em nossa egocêntrica sociedade.
Por outro lado, todos os dias, centenas de pessoas de boa vontade dedicam suas vidas à causa animal. São chamadas "protetores". Muitos transformam seus lares em abrigos e vivem numa realidade inimaginável para a maioria de nós.
Você pode ajudar essas pessoas a ajudar os animais. Procure os grupos de protetores em sua cidade. Eles precisam de todo tipo de ajuda: dinheiro, materiais de limpeza, de construção, remédios, serviços, voluntariado e até mesmo o simples compartilhamento de suas mensagens nas redes sociais.
QUALQUER tipo de ajuda é bem-vinda, por menor que pareça.
NÃO COMPRE: ADOTE.
FICHA TÉCNICA:
Faixa: O Andarilho
Letra, arranjos, vozes, violões, guitarras, baixo, percussões, captação, mixagem e masterização de áudio e imagem, projeto gráfico, distribuição e produção: I. Malförea
#façavocêmesmo
Agradecimentos (vídeos adicionais): Júlio Náufrago e Plácido Gusmão.
Ouça também em todas as demais plataformas musicais:
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Noite escura
Vento e chuva
A rua sem ninguém
Não devia estar só
Mas podia ser pior
Esperar quem não vem
Todo um mundo girando
Falando, sorrindo, cantando
E ele sempre só
Já cansou de chorar
E é difícil sorrir
Desistiu de amar
É mais fácil fugir
Madrugada
Alvorada
Até o pôr-do-Sol
Não devia estar só
Mas é até melhor
Depois do que passou
Todos passam olhando
Censurando ou ignorando
Mas sente, como nós
Não adianta chorar
Ninguém vai acudir
Não merece um olhar
Nem devia existir
Não tem alma
Nem vale nada
Consigo apenas dor
Não devia estar só
O mundo é bem melhor
Pra todos nasce o Sol
Uma mão se estendendo
Um abraço apertado
Um sonho, ou algo assim
Eu te ouvi chorar
Então vim até aqui
Chega deste lugar
A dor chegou ao fim
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#fiqueemcasa e #façavocêmesmo #fiquecomigo #vitóriadaconquista #autoral #countryrock #rocknacional #diy #brazilianblues #quarentenado #quarantined #onemanband #animaisderua #adote #nãocompreadote #animais #cão #gato

Não lembro exatamente o ano em que comecei a me envolver com o rock conquistense. Durante a adolescência, quando estudava no Colégio Paulo VI (1996 a 1998), meu grupo de amigos era pequeno, e tínhamos alguns gostos musicais em comum: Guns n' Roses era unânime, mas eu era o único que gostava de Dire Straits (herança musical do meu tio Robson, durante a infância), dividia o gosto por The Police e Men at Work com um, Bon Jovi, Scorpions com outro, Legião Urbana e Raul Seixas, idem. Raul, por sinal, desde os 14 anos, era considerado o meu pai musical. Ele sempre esteve num alto pedestal para mim no Brasil, e nomes como Led Zeppelin, no pedestal gringo. Eu colecionava fitas K-7, a maioria pirata, daquelas que todo mundo comprava nos camelôs das alamedas próximas ao terminal de ônibus. Lembro de ter umas treze fitas diferentes de Raul. Na minha sala, na oitava série (atual 9º ano), lembro de haver outro grupo de garotos que eram fãs dele, mas era um grupo rival: não nos misturávamos. Esse era o meu contato com o rock nessa época: praticamente solitário. Eu era o típico adolescente que se trancava no quarto para ouvir música, colar pôsteres na parede e escrever coisas. Foi, aliás, quando despertei para uma característica (durante muito tempo encarada como defeito) muito pessoal: a solidão como algo natural e agradável que, décadas depois, foi expressa de forma mais amadurecida na música Ame a Solidão.
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| Algumas das fitas K-7 que fizeram a minha cabeça |
Algum tempo depois, entre um a dois anos, um daqueles meus amigos, Jamilton, me apresentou a uns garotos que moravam ao lado do Paulo VI, onde hoje seria em frente à entrada principal. Jamilton morava um pouco acima. Eles tocavam violão, tinham pôsteres de bandas que eu ainda não conhecia, e conversavam com muita cumplicidade sobre o rock com outros até então desconhecidos. Era um universo completamente novo para mim: era uma turma muito mais amigável que as do colégio, sem aquela carga pesada de brigas e antipatias (o que tornava meu pequeno grupo uma espécie de refúgio a todos os membros, que aparentemente também não se encaixavam bem em nenhum outro). Passei a frequentar essa turma. Aqueles garotos da casa se chamam Darlan e Bruno e são irmãos. Pertenciam a uma banda chamada A-Divert, a primeiríssima banda que tive contato tão de perto e, por muita sorte, uma das pouquíssimas bandas autorais autorais da cidade àquele momento, possivelmente 1999 ou 2000. Pela primeira vez na vida vi alguém de carne e osso (leia-se alguém da minha idade, no mesmo patamar que o meu) tocando bem um instrumento musical. Na verdade, foi nessa época que eu vi uma guitarra, um baixo, uma bateria de perto pela primeira vez.
Meu interesse se deu por dois motivos: 1) eu era roqueiro desde sempre e não sabia; 2) Com aproximadamente uns 14 anos, meu seleto grupinho escolar de amigos decidiu montar uma banda, mesmo sem saber tocar nada. A ideia seria todos aprenderem juntos, como os Titãs e outras bandas contemporâneas fizeram. Não sei por que, mas me elegeram como baixista e vocalista dessa banda, mesmo sem eu nunca ter cantado na frente de alguém antes. O modelo era o Guns n' Roses. O que ficou encarregado de ser guitarrista solo aprendeu a tocar violão, outros dois nunca levaram a sério e eu fiquei com aquela ideia na cabeça (onde diabos arrumaria dinheiro para comprar um contrabaixo?). Passei a pesquisar sobre contrabaixos na recém chegada internet discada (imprimi vários sites naquela velha e lerdíssima HP jato de tinta), ficava encantado ao passar numa loja de instrumentos na rua do Madrigal e ver aquele inalcançável e caro (caríssimo!) sonho pendurado na vitrine. Sobre cantar, eu sempre acompanhava as músicas em meu quarto, de forma disfarçada: o som ficava alto, eu acompanhava cantando junto e mais baixo, para que ninguém de fora escutasse. Tímido demais pra ser flagrado cantando. Assim, sem querer, aprendi a cantar afinado e a descobrir minha extensão vocal, mesmo sem fazer a mínima ideia nem de que isso existisse. Ao chegar naquele universo de garotos-músicos, fui automaticamente atraído.
A região do bairro Brasil era repleta de roqueiros, e todos se conheciam. A música unia pessoas. Muitas amizades, namoros, casamentos, parcerias surgiram nesses burburinhos nas portas e quartos uns dos outros. Os VHS de shows eram compartilhados constantemente. Por sinal, havia as locadoras de vídeo e de CD. No bairro Brasil, me lembro da Trans Vídeo, próximo à feirinha, uma mais embaixo, e outra, que também não lembro o nome, na Avenida Brumado, em frente ao atual Centro Cultural Glauber Rocha. Aqueles shows do Guns n' Roses no Japão eram um momento de êxtase para um adolescente vivenciar em grupos vestidos de preto nos quartos de um ou outro membro. Alguns tinham dois videocassetes, então, as valiosas cópias surgiam de forma muito bem vinda. As locadoras de CD eram mais raras. Lembro de uma entre a Praça da Normal e a Praça do Gil, com um acervo considerável. De vez em quando dava para juntar uma grana e comprar alguns arranhados e sem capa por um preço bom (para um moleque). Assim, discos de Eric Clapton, Led Zeppelin, Yardbirds se transformavam em fitas K-7, aumentando o repertório de toda uma geração.
Um outro fenômeno maravilhoso para mim foi o universo das bandas. Como já disse, conheci o pessoal da A-Divert (nome genial e dúbio que traduzia realmente a mensagem básica do grupo), formada por Leo Gama (chamado de Chip à época) na voz, Darlan Barbosa na guitarra, Daniel Mendes na guitarra, Bruno Barbosa no baixo e Fabiano Harada (Japon) na bateria. Chip era o poeta do grupo: lembro de ver algumas letras autorais escritas em máquina de escrever num fichário ou pasta, e essas eram as músicas da banda. Isso me chamou muito a atenção à época, como se fosse um veja: assim é uma banda: organizada, com tudo documentado. Darlan era louco por bandas como Dream Theater e Angra, com guitarristas de palhetada rápida (ouvia muito essa expressão nesse período). Daniel era bem introspectivo: nunca tive muita conversa com ele, mas parecia legal. Morava na Vila Serrana II, se não me engano. Uma vez ele me deu um CD duplo do The Police, que tenho até hoje. Mudou-se para a Inglaterra um tempo depois. Bruno curtia hard rock, como Darlan, mas também o rock nacional. Uma vez, escrevemos juntos uma paródia de Fátima (Capital Inicial) na calçada de sua casa. Japon era primo de Darlan e Bruno. Mais velho, já era professor de matemática, gostava de filosofia e história. Teve um papel especial em minha trajetória, como falarei mais adiante.
A banda fazia ensaios regularmente em estúdios próprios para isso. Sempre que possível, lá estava eu, assistindo tudo de camarote e absorvendo todo aquele aprendizado como uma esponja. Os estúdios eram templos do rock conquistense: geralmente criados por membros de bandas e improvisados em algum ponto comercial provavelmente não utilizado pela família ou algo do tipo. Tudo era MUITO improvisado: alguns tinham bateria (obviamente, muitos bateristas não tinham bateria), com pratos e peles em pedaços, caixas de som sofríveis, microfones idem (quando tinha algum funcionando) e paredes revestidas por caixas de ovos. Tudo extremamente tosco, mas foi o suficiente para criar uma cena musical de verdade. Sempre alguém levava bebida, e os ensaios eram uma barulhenta celebração ao rock n' roll. Nesses locais eram preparados os lendários shows do início do século XXI em Conquista. Lembro-me de alguns, como o estúdio da banda Parrázio (Urbis II) e o da Mictian (Brasil), que nem se chamava Mictian ainda. Alguns ensaios aconteciam também em casas, como a República da Fumaça (Urbis I).
Houve um período em que a A-Divert ensaiava na casa de Pablo Couto (atual banda de forró Fiá Paví), em algum lugar às margens da Av. Olívia Flores, num quarto nos fundos. Eu fui uma ou duas vezes. Como disse, em casa, trancado no quarto, eu tentava acompanhar as músicas cantando, de uma forma que a minha voz se misturasse/confundisse com a gravação, para que ninguém me notasse cantando. Fui pegando o jeito bem aos poucos. Num desses ensaios, no intervalo, alguém começou a tocar Cowboy Fora da Lei ao violão, no jardim. Eu criei coragem e cantei junto. Nessa, percebi que Japon observava a cena. Algum tempo depois, toca a campainha em minha casa, na Vila Serrana I. Era Japon e mais alguém. Talvez Bruno. Disseram que a banda brigou e Chip havia saído. Estavam... Me convidando para substituí-lo! (!!!) Foi uma conversa longa. Lembro de algumas frases, como é algo que você gosta e sabe fazer, não vai te atrapalhar, coisas mais ou menos assim. Enfim, topei. Fui ao primeiro ensaio, ainda na casa de Pablo. Eu estava em pânico. Cantei muito mal (aquecimento vocal era algo que nunca tinha chegado perto de ouvir falar). Fiquei com tanta vergonha, que estiquei o cabo do microfone (nunca tinha sequer pegado num antes, nem para saber qual o peso) ao máximo e fiquei fora do ambiente onde estava o resto da banda, com medo de vê-los torcer o nariz. Lembro também de ouvir Pablo dizer: Vei, tá feio. Tá feio! Na saída, estava acontecendo alguma festa de rua na Olívia, talvez uma micareta, e encontrávamos pessoas desconhecidas e Japon me apresentava como o novo vocalista. Bem, o pânico foi grande, a coisa não deu certo e não passou daquele ensaio. Não me lembro se Chip voltou ou foi depois disso que Japon passou aos vocais. Ele chegou a cantar na Festa da Babilônia II, no estacionamento do Bradesco, em frente ao Cine Madrigal. Teve Samba Maioral e Sociedade Alternativa no repertório, e briga de correntes na rua.
O fato que ficou marcado para sempre é: Japon foi a primeira pessoa que viu em mim algum potencial musical. Eu até pensava que levava jeito (sem ter ideia de quão cru era), mas sempre fui muito crítico quanto às minhas ideias: até que ponto algo era real ou não passava de mais uma viagem de minha sonhadora cabeça? Bem, ele, ao me convidar para ser vocalista de uma banda que eu admirava tanto, destravou a primeira barreira mental dentre as muitas existentes na cabeça de alguém extremamente tímido, mas cheio de ideias. A A-Divert, infelizmente, nunca chegou a gravar suas músicas. Para mim, ainda hoje, era a melhor banda de Vitória da Conquista e seu fim foi o maior desperdício daquela metade da década.
Continua...
Cenas dos próximos capítulos: mais bandas e shows, os programas de rádio e o crescimento da cena roqueira da cidade na primeira metade dos anos 2000.
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Gostaria de publicar suas memórias sobre algum aspecto da música na região? Entre em contato. Seu relato é valioso.
Joe Malfs Clan é o projeto individual de I. Malförea, cantor, compositor, produtor e pesquisador musical. Fundador da banda Distintivo Blue, sentiu a necessidade de produzir músicas de forma solitária, com suas influências, feeling, timbragens e composições que não caberiam num formato coletivo. Assim, seu clã super-restrito formado por si mesmo e, muito eventualmente, amigos-colaboradores, adotou o lema “faça você mesmo” como norte, produzindo o máximo possível de forma solitária, em casa, com os equipamentos disponíveis, que podem incluir até mesmo utensílios domésticos e sons inusitados, captados frequentemente pelo artista no dia-a-dia.
As músicas são 100% orgânicas, e sem nenhum compromisso com padrões de mercado: "não faço música para os outros, mas para mim. Se coincidir de alguém curtir, é maravilhoso, mas não me importo se a maioria ouvir e achar tosco ou ruim. Aqui é arte em seu estado natural: como uma forma de expressão, e não tenho tempo a perder com detalhes técnicos que atrapalham essa expressão. Meu pouco conhecimento é suficiente para pensar em algo e eternizá-lo sob a forma de um fonograma. A evolução técnica surge naturalmente, movida pela curiosidade e necessidade de se fazer algo que ainda não conheço."
A primeira música escolhida para o projeto é "Na Trilha do Blues", de autoria de Thomaz Oliveira e lançada no EP "Riffs, Shuffles, Rock N' Roll", da Distintivo Blue. Todos os instrumentos foram gravados em casa e todo o processo de produção foi solitário, usando os recursos disponíveis. Os próximos vídeos trarão músicas autorais inéditas, releituras de já lançadas e, eventualmente, covers.
FICHA TÉCNICA
Faixa: Na Trilha do Blues
Letra: Thomaz Oliveira, com adaptações de I. Malförea
Arranjos: I. Malförea e Distintivo Blue
I. Malförea: vozes, violões, guitarras, baixo, cajón, percussões, gaita, captação, mixagem e masterização de áudio e imagem e projeto gráfico
Participação especial dos gatos Don, Mia e Lili
Ouça também em qualquer plataforma musical (Spotify, Deezer, Tidal, Soundcloud, Bandcamp, Reverbnation, Palco MP3, Amazon Music, iTunes, Apple Music, etc...)
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Hoje eu vou passar por essa estrada
Na trilha do blues
Na linha do improviso
Tocando riffs, shuffles, rock n’ roll
Na trilha do blues
Buscando a essência em que nós
Nos encontramos, baby
Em meio a uma jam de notas musicais
Na trilha do blues
Onde tudo é sentimento
Um bend na esquina
Um E7 e um lamento
E eu volto no slide um turnaround blue
Onde encontro com você, baby
Na trilha de um solo penta, oh yeah!
Eu que já andei por esta estrada
Na trilha do blues
Na linha do improviso
Tocando Pink e Floyd no sertão
Na trilha do blues
Vivendo a riqueza em que nós
Nos amamos, baby
Em meio a uma jam embaixo dos lençóis
Você me dá amor
E eu te ofereço um blues
Você no suíngue da cor
E da voz que te seduz
Na linha do tal improviso
Em meio a uma jam
E certamente é disso que eu preciso
Na trilha do Blues
Buscando o tal improviso
Na trilha do Blues
Encontrei o meu amor
Na trilha do Blues
Na estação central
Na trilha do Blues
Riffs, shuffles, rock n’ roll
Na trilha do Blues
E certamente é disso que eu preciso
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#fiqueemcasa e #façavocêmesmo #fiquecomigo #vitóriadaconquista #autoral #bluesbrasileiro #bluesnacional #diy #brazilianblues #quarentenado #quarantined #onemanband #cajón

Estou entrando em estúdio para gravar meu quinto disco. Hoje isso não me soa mais estranho como antes, mas ainda me desperta aquele friozinho na barriga, aquela ansiedade gostosa. Sempre que começo um processo como este procuro ter a consciência de que estarei diferente quando terminar, afinal de contas é lá que vamos fabricar a famosa “ponta do iceberg” do músico: a vitrine, o cartão de visitas, o fonograma.
O estúdio geralmente é um lugar escuro e com um leve cheiro de mofo. A maioria é empoeirada e não é limpa regularmente, um terror para os que, assim como eu, nasceram condenados a ter problemas respiratórios. Estou falando dos estúdios pequenos e acessíveis a nós, reles mortais. Imagino que os grandes possuam uma equipe de limpeza pronta a tornar mais agradável este ambiente mágico.
Entrar num estúdio pela primeira vez (já faz bastante tempo) pra mim foi como conhecer a Disneylândia para boa parte de outras “crianças”. Era dali (ou de um lugar como aquele) que saiam as músicas que sempre me fizeram a cabeça. O cotidiano desse lugar me parecia espetacular. Aquelas caixas preto e branco tinham um som bem melhor que as da minha casa. Seria ali que minhas ideias tomariam a forma definitiva, a forma de um produto.
O processo é demorado, trabalhoso e, não raro, entediante para quem só assiste. Mas eu adoro aquilo. Decidir o beat da música, gravar a guia (uma espécie de rascunho sonoro dentro do tempo do metrônomo, onde será gravada toda a música por cima), passar para a bateria, depois o baixo e assim por diante. Teoricamente minha parte (vocal) seria uma das últimas, junto com os metais (sax, trompete e trombone), mas eu acompanho tudo e dou pitaco em tudo, afinal, é meu nome em jogo, minhas ideias que estão sendo montadas, juntamente com as dos meus colegas. Não dá pra simplesmente ficar inerte e esperar sua vez “oficial”.
Terminado todo o longo processo, estamos com os fonogramas no pendrive ou alguma outra mídia de armazenamento. Há um outro trabalho, técnico e burocrático, que inclui o cadastro das músicas para se obter o ISRC (aquele monte de números que acompanham os nomes das faixas nos encartes dos CDs. São como o RG de cada faixa e teoricamente servem para que o ECAD nos repasse a grana por execuções Brasil afora. Teoricamente), produção de capa, essas coisas. Tudo bem chato pra muita gente também.
O fonograma é, de certa forma, maior que o músico, que o autor. Ele chega a lugares que eu nunca chegarei. E vai continuar por aí, mesmo depois que eu bata as botas. Quando alguém quiser lembrar de como era a minha voz é só ouvir uma das minhas músicas. Minha visão de mundo está nas letras. Como disse Raul, “os homens passam, as músicas ficam”. É uma forma de ser eterno.
O tempo passa e eu tenho um pacote de lembranças totalmente diferente de todo mundo quando ouço uma música minha. Posso me lembrar do processo de composição e das horas dentro de um estúdio, saindo de lá meio tonto depois de horas trabalhando. Mas vale a pena. Lembrei do Gilmour dizendo que gostaria muito de ter a sensação de ir a uma loja, comprar e ouvir o Dark Side of the Moon pela primeira vez, sem essas lembranças, apenas como um simples fã que ouve sem saber o que vem pela frente e vai se surpreendendo. Taí… Entendo perfeitamente. Mas eu gostaria de estar no estúdio com eles, com certeza.
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Publicado originalmente em 16/04/2015, em Troca o Disco.











