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O dia em que Elomar fez uma live

Por I. Malförea
Aos 82 anos, o compositor Elomar Figueira continua inspirando fortes emoções em seu público. Em primeiríssimo lugar, acredito, está a grande aura de mistério que criou em torno de si, sendo alheio a midiatismos e a quaisquer outras exposições, sendo raras as suas aparições, mesmo em palco. Ainda assim, sua personalidade forte incorporou sua "mitologia", sendo conhecidos até mesmo abusos utópicos, como na ocasião em que "proibiu", num show em praça pública (2008), que as pessoas o fotografassem. Tudo isso, somado ao comportamento de boa parte do seu público, que o usa como uma espécie de "atestado de intelectualidade" e o coloca não apenas no patamar de um grande artista, que inegavelmente é, mas o enxerga como uma espécie de entidade sagrada e intocável, complexa demais para ser compreendida de forma natural (como se dá com qualquer outro artista no mundo), apesar de tratar de temas tão simples e cotidianos de um povo igualmente simples. Sua própria equipe de produção alimenta esse sentimento, gerando situações no mínimo pitorescas em pleno século XXI, como a já citada acima.

Assim, o público, num período de grandes perdas no campo da música, sente-se feliz por saber que um nome de tamanho peso continua firme entre nós. Naturalmente, num período de grande circulação de informação, espera encontrar sua discografia completa nas plataformas de streaming, vídeos de concertos no YouTube, entrevistas, e o máximo possível de material para apreciar, mostrar aos jovens e manter viva a obra do artista-símbolo da região sudoeste da Bahia. Mas... Decepciona-se rapidamente. No momento em que este texto é escrito (04/05/2020 às 9 da manhã), apenas ...Das Barrancas do Rio Gavião (1973) aparece num perfil de Elomar no Spotify. Em outro, divulgado recentemente, temos Na Quadrada das Águas Perdidas (1979). Conta-se nos dedos quem possui um toca-discos em boas condições e algum LP idem em casa. Espera-se um tratamento mais digno e cuidadoso para com o público. E digo com a experiência de quem foi o primeiro artista conquistense a disponibilizar sua discografia completa no Spotify: não falamos aqui de uma tarefa complicada demais, longe disso, especialmente para um artista que possui uma equipe profissional de produção e divulgação.

A bagunça de perfis de Elomar no Spotify. Até mesmo numa plataforma tão intuitiva, é difícil chegar até ele.

Em meio a esse histórico complicado, onde o público parece ser propositadamente boicotado, surge uma luz ao fim do túnel: em fevereiro, foi criado o perfil oficial do artista no Instagram, trazendo imagens diversas, inclusive vídeos (ainda seguindo o cômico modelo de se evitar seu rosto) e informações recentes sobre apresentações, lançamentos e produtos. Até mesmo sugestões de leitura em áudio foram disponibilizadas. É uma forma ainda tímida, mas nota-se que a equipe de Elomar finalmente parece ter percebido o óbvio: estamos no tecnológico ano de 2020!

Eis que, inesperadamente, surge um inacreditável anúncio: uma LIVE de Elomar, no dia 02 de maio, com o objetivo de atender às perguntas dos fãs, sobre a situação do artista durante a pandemia do COVID-19 e seu cotidiano. Foi marcada para as 17h. As pessoas começaram a passar a mensagem adiante. O sinal de transmissão apareceu no perfil e, rapidamente, centenas de pessoas assistiam a um passeio pela casa do músico, repleta de quadros presenteados por admiradores. Tudo com um terrível filtro do Instagram, que impedia uma boa visualização e frustrava a todos. Aparece, então, Rossane Nascimento, ex-repórter dos primórdios da TV Sudoeste e produtora do artista, falando algo impossível de compreender, pelas falhas do áudio. O público a avisa do problema e uma nova live é iniciada, ainda com o filtro.

Pode-se ver, então, após os incontáveis protestos que, enfim, culminaram na retirada do filtro, a tão característica figura de Elomar, com seus cabelos brancos, calça e botas, ensaiando numa sala com seu filho, o maestro João Omar, de máscara. Um momento ímpar e surpreendente. Neste momento são mais de 800 pessoas assistindo a uma live praticamente não-divulgada, de um artista avesso à mídia, cultuado mundialmente. 

Elomar faz piada com a expressão "live". A produtora insiste, durante todo o tempo, em não se tratar de uma live, e sim de um ensaio, um momento descontraído, mostrando não ter muita familiaridade com as mídias digitais, afinal, fazer uma live para informar que não está fazendo uma live é, no mínimo, engraçado. A produtora parece considerar "live" como algo formal: um show (insiste também no fato de Elomar torcer o nariz para estrangeirismos) ao vivo, como o especial do Roberto Carlos na TV. Porém, como qualquer um bem sabe, uma "live" significa, simplesmente, uma transmissão ao vivo (ou seja: não-gravada previamente) e pode ter, como conteúdo, tanto um pomposo e produzido show como qualquer outra coisa, como um adolescente falando maluquices do seu quarto, ou mesmo uma transmissão do movimento na rua. Enfim, sempre vale lembrar, reconhecer o avanço do tempo nunca foi o forte dessa turminha.

O fato é que o público, finalmente, foi presenteado ao invés de punido: Elomar conversou, respondeu a perguntas, tocou músicas, tomou café, atrapalhou-se com a máscara e preencheu o vazio nos corações do público já aflito rumo ao segundo mês de quarentena, assistindo, de camarote, ao crescimento do número de mortos local, estadual, nacional e mundialmente. Nem mesmo os centenários têm alguma lembrança de algo parecido. Vivemos um momento criticamente ímpar e são justamente os artistas, com suas lives, pomposas ou amadoras, os encarregados de acalmar os ânimos, e nos lembrar de quem realmente somos. E pudemos nos lembrar do óbvio: 1) Elomar é sim um grande artista; 2) Elomar é um ser humano como qualquer outro, e não um semideus que precise sempre ter sua mística resguardada. Esperamos que episódios como este se repitam. A própria produtora anunciou o lançamento do canal do artista no YouTube, dando a entender que teremos, finalmente, material novo em vídeo.

O nosso objetivo é a preservação da memória musical da região, por isso, tratamos de disponibilizar a íntegra da live para que este belo momento nunca se perca com o tempo. Aproveite, passe um cafezinho e sinta-se na sala de uma conhecida casa na Avenida Rosa Cruz, em Vitória da Conquista-BA.

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ATUALIZAÇÃO (11 horas após a publicação desta matéria):

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* * * Aqui havia o vídeo com a íntegra da live citada no texto * * *
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Fomos contatados, via WhatsApp, pela Rossane Comunicação, que exigiu, em tom de ameaça, a retirada do material a qual esta matéria se refere, incluindo até mesmo os prints da live, sob pena de acionamento da Justiça. Assim, fica indisponível o registro da histórica live do compositor Elomar.

I. Malförea

O "Memória Musical do Sudoeste da Bahia" precisa da sua colaboração. Tem algum material guardado? Gostaria de publicar seu próprio texto aqui? Acrescentar ou retirar algo? Entre em contato através do "fale conosco". Vamos preservar juntos a nossa história!

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