
Noah Kinrin Azevedo Viana Silva*
O acesso à cultura tem se expandido na Bahia principalmente em Vitória da Conquista de forma acessível e até gratuitamente tendo como exemplo o Moto Rock ou a Suíça Baiana. Mas a questão é: É de fato acessível para todos? Algumas bandas e artistas conseguem se apresentar de forma independente nesses eventos? o governo financia a cultura?
Conversando com produtores como Gilmar Dantas, produtor do Festival Suíça Bahiana, diz inicialmente que o evento surgiu em 2010, como um evento com cobrança de ingressos e acabou se tornando lei em 2020 e, desde então, passou a ser gratuito. Gilmar afirma que a prefeitura e o governo do estado têm financiado essas últimas edições.
“Cerca de 90% do custo do evento é bancado pela prefeitura e pelo estado, e o restante através do bar, praça de alimentação e merchandising. A iniciativa privada participa muito pouco, ou muitas vezes nem sequer participa.”
Ele também comenta que tem todo um processo na seleção de bandas e festivais não devam ser os primeiros palcos de uma banda. Ela precisa primeiro tocar em lugares menores, como bares e espaços alternativos para criarem demanda naturalmente. Apesar disso, os eventos ainda têm muito o que evoluir.
“Conquista precisa ter um calendário melhor organizado em que cada evento já saiba desde o início do ano com quanto poderá contar de aporte público, e assim poder se programar melhor. Precisa também ter mais espaços e apoio da iniciativa privada.”
Já para Maurício Franco, vocalista da banda Mórficos e produtor dos eventos MorficFest e Sabbath do Mau, ele diz que o governo pode sim financiar, mas sem um bom projeto e uma boa execução ela não funciona.
"O acesso à cultura em pequenas cidades sempre são escassos, exceto pela resistência de pessoas como eu, que fazem sem esse 'apoio ao governo' de forma totalmente independente."
Ele chega a falar que às vezes o projeto sequer é lido e que não há uma expectativa de retorno financeiro, contanto que a verba cubra a execução do projeto. Na maior parte, ele cria os eventos sem nenhum patrocínio. Ele também diz que as bandas têm visibilidade pequena porque não tem oportunidade em grandes festivais, principalmente as autorais, mas nos eventos da MorficFest, ele dá essa visibilidade a bandas independentes.
Na visão de Plácido Oliveira, produtor cultural que trabalha no projeto Memória Musical do Sudoeste da Bahia, diz que os empresários, em geral, demonstram interesse em patrocinar apenas eventos de grande projeção, como o Festival de Inverno Bahia, virando as costas ao cenário independente. Já o poder público tem seus editais de cultura, mas o próprio orçamento municipal para a Secretaria de Cultura é pífio. Assim, nunca houve, por parte do poder público municipal, um real interesse em um programa cultural para a cidade, se concentrando em eventos pontuais, sendo o São João e o Natal, os principais. Fora dessas datas, as iniciativas culturais da prefeitura são mínimas, e isso se reflete até mesmo na divulgação da existência dos poucos museus da cidade.
“Algumas iniciativas inicialmente privadas conseguem dinheiro público, tornando o acesso do público gratuito, como o Festival Suíça Bahiana e o Conquista Moto Rock. Estes conseguiram entrar para o calendário oficial da cidade, um mecanismo que se dá através de aprovação de lei pela Câmara dos Vereadores, fazendo com que eles aconteçam com periodicidade (anual) e contem com dinheiro público. Em contrapartida, o acesso do público deve ser gratuito. Ainda assim, como o orçamento ainda é pequeno, a divulgação não é tão eficaz, sobretudo offline, ao menos no caso do Festival Suíça Bahiana. O Moto Rock foi criado por um grupo formado por muitas pessoas influentes, tendo como principal sócio o proprietário de uma construtora (Prates Bonfim), por isso eles conseguem fazer uma grande divulgação, que perde apenas para a do FIB, que é imbatível por ser da Rede Bahia, filiada à Globo.”
Sobre os artistas, Plácido fala que é complicado, já que, em alguns eventos tem que participar dos editais, que têm a crescente obrigatoriedade de se encaixar nas cotas para aprovação, sendo prioridade nesses editais, gerando verdadeiras aberrações, pois precisam colocar essas informações nos editais para terem uma chance de participar, mesmo que artisticamente não tenha afinidade.
“É uma situação muito longe do ideal, e que avança a passos lentos. Há muita falta de iniciativa e de boa vontade em todos os lados, e a culpa está em todos os setores: poder público, iniciativa privada, artistas (que são extremamente desunidos e individualistas, no geral), mídia, etc. Não consigo ver uma solução imediata ou a curto prazo. O que pode mudar algo talvez seja a iniciativa individual para colaborar, pensando na cultura da nossa região como um todo, um patrimônio a ser preservado. E pensando nisso que criei o projeto Memória Musical do Sudoeste da Bahia, um “trabalho de formiguinha”, de pouco impacto no cenário geral, sem apoio de quase ninguém e mantido por recursos próprios, que tem portas abertas a todos os artistas da música do sudoeste, independentemente de gênero musical ou qualquer outra coisa.”
Nos olhos do público que frequenta tais eventos, alguns mesmo de outra cidade dizem que são bem localizados e são acessíveis, mas a reclamação sobre o custo alto das barracas de alimentação, que chega a custar o dobro ou o triplo do preço de um supermercado.
“Eu fui morador de Brumado por toda a minha vida e me mudei recentemente pra Vitória da Conquista. Eu percebi que aqui tem muito mais festivais em relação à minha antiga cidade que raramente tinha destes, tanto por falta de interesse governamental em investimentos em lazer e entretenimento, quanto por péssimo gerenciamento por parte do próprio governo. Eu já cheguei a participar de eventos em Vitória da Conquista antes de me mudar, como o FIB e a Anicon, além do Motorock que participei esse ano depois de me mudar, e desse tempo que eu passei em VCA, eu posso afirmar que um problema recorrente é a questão dos altos preços cobrados pelas barracas de comida e bebidas, que geralmente cobram o dobro ou até mesmo o triplo do valor que você acharia em qualquer supermercado por aí. Os espaços são até bem localizados, a acessibilidade do preço dos ingressos é, na minha visão, bem construída.”
Diz Lourival Alves de Oliveira Junior, estudante de engenharia da computação na FAINOR. O mesmo também comenta que o problema recorrente em cidades pequenas é realmente a falta de visão sobre o entretenimento da população.
“Nos meus círculos de conhecidos, muitos acabam preferindo as festas das cidades de fora, que são um pouco maiores, às festas da própria cidade, cuja não tem uma estrutura ou localizações favoráveis para receber artistas maiores e uma grande quantidade de pessoas.”
No ponto de vista de Maria Clara Pereira Botto Cal, a proposta desses eventos como o FIB, por exemplo são bem acessíveis, já que trazem artistas de um nível maior que geralmente se apresentam em eventos de grande porte como o Rock in Rio ou o Lollapalooza para cidades menores como aqui em Vitória da Conquista. Ela diz que, comparando com os preços desses eventos de grande porte como os eventos daqui, elas se tornam bem acessíveis. Porém há coisas que deixam a desejar.
“Dentro do Festival, tem coisas que deixam a desejar, como por exemplo a alimentação, que tem um valor realmente muito alto, um valor muito distante assim do resto dos lugares, e aí fica difícil, pois você não pode levar nem comida e nem água de fora e, toda a alimentação são muito caras, e aí acaba se tornando inacessível para algumas pessoas permanecerem no evento.”
Cris Miranda, professora de português e artes do Colégio Estadual Professora Heleusa Figueira Câmara, comenta que são eventos de qualidade e mais acessíveis nos dias de hoje, porém ainda por uma classe minoritária, pois são de alto custo tanto no que se refere ao valor das entradas quanto ao valor do que é consumido lá dentro. Ela também comenta que o governo investe pouco em cultura para o povo de baixa renda e que são omissos.
“Deveria investir mais e apoiar os comerciantes que participam deste evento, visto que atrai turistas e gera renda e emprego para nossa região. Poderiam incentivar e contribuir muito mais.”
Os próprios artistas também têm muito o que dizer. Bruno Garcez, vocalista da banda Dumblegore e baixista das bandas Valley of Bones, Mórficos e Cinzeiro, diz que não conseguem se apresentar com totalidade, pois não é da cultura do baiano ou até mesmo dos brasileiros.
“Os shows carecem de público e eventos independentes mal se pagam.”
Bruno fala que o acesso à cultura tem muito o que evoluir, ainda mais no Brasil, onde o trabalhador tem que escolher se come ou se gasta dinheiro consumindo cultura, que muitas das vezes, é inacessível para a maioria.
“Aqui em conquista, por exemplo. Temos equipamentos públicos que não podemos utilizar como a Praça da Juventude e o agora interditado, Carlos Jeovah. O centro de cultura é um equipamento caro e inacessível na maior parte das vezes.”
Silvestre Viana, vocalista da Cinzeiro e do Sr. Pokan e os Tangerinas, não ficou de fora. Ele diz que não existe esse “apresentar de forma independente” em eventos na cidade de Vitória da Conquista e comenta que existem “panelas” em determinados grupos que criam estes eventos.
“Alguns eventos em Vitória da Conquista exigem uma burocracia por curadoria. Só que a gente sabe que é meramente uma falácia, pois eles (curadoria) já tem noção das pessoas que vão tocar no evento. Às vezes, é muito melhor dizer diretamente quem é que vai botar do que inventar uma curadoria que não funciona.”
Ele comenta que, pro cidadão, a cultura ainda é inacessível, dando o exemplo do Agosto de Rock, que o ingresso era uma porcentagem de um salário mínimo. Então, uma pessoa que tem um filho, por exemplo, tem que escolher se vai escutar rock ou se paga as contas, tornando-se inacessível para essas pessoas.
Gabi Bomfim, conhecida como Balaio, vocalista da banda Dona Iracema, afirma que para a bandas se apresentarem, principalmente no cenário independente onde ela tem que gerir as contas da banda que tem que ser levadas em consideração na hora de vender o show, é meramente burocrático, levando em questão a logística, valores e uma questão burocrática em contratos, pois o mercado da música mudou drasticamente e, bandas independentes tem que se desdobrar nas burocracias, correr atrás de fazer um CNPJ para poder circular para tocar em shows e dar contas dessas questões. Ela também comenta que a cultura tem muito que evoluir bastante.
“Eu não acho que o acesso à cultura nem seja acessível e nem seja o suficiente. Os artistas que trabalham deveriam ser muito bem pagos e a cultura deveria ser de acesso gratuito pro público e isso não é contraditório de forma alguma. A cultura é algo que faz o ser humano ser quem é, né? o nosso povo ser quem é. Quando a gente fala do nosso povo, a gente fala de um povo que é formado na cultura. A cultura não é algo que a gente usa pra descansar do trabalho, ela nos forma enquanto cidadãos e cidadãs. Algo que educa, algo que tá no desenvolvimento inclusive das crianças da nossa cidade, do nosso estado, do nosso país. Então eu acho que o acesso à cultura deveria ser democrático e público, gratuito em várias localidades na cidade, que não deva ser localizada nos grandes centros, afastadas da periferia de forma alguma. O acesso à cultura deve ser mais expandido.”
Balaio, também afirma que, independente do tamanho da cidade, no interior da Bahia, tiveram grandes bandas com nomes incríveis que são independentes, como por exemplo Cama de Jornal, Social Freak, Outra Conduta, Signista e etc. Então sim, tem como bandas independentes se apresentarem em cidades como Conquista, que já tiveram bandas que circulam nessas regiões como Poções e Jequié.
“São essas bandas que constroem a cena local, e eu coloco também nesse processo a minha banda. A Dona Iracema está de igual pra igual nesta minha fala com a Signista, a Cama de Jornal e outras bandas que compõem a cena. Essas bandas são importantíssimas pra mostrar que quem movimenta a cultura de verdade somos nós, são as pessoas, não são os grandes empresários e coisas do tipo. O que movimenta a cultura é o povo e o underground. As bandas que se apresentam ali de forma independente nas suas cidades. E digo mais, eu acredito que uma banda totalmente independente do interior da Bahia pode voar outros ares, pode se expandir, pode crescer e acessar outros públicos. Acredito muito no nosso povo, nosso povo é muito talentoso, nosso povo é muito diferenciado em relação a arte, olha só quantos nomes que levamos pra história da arte brasileira que saíram daqui da nossa terrinha. A mesma coisa são com as bandas de rock. Conquista é incrível, o interior da Bahia é incrível pra rock.”
* Noah é estudante do 3º ano do Ensino Médio.
Na manhã desta sexta-feira, 05, foi realizada na Câmara Municipal de Vitória da Conquista a sessão especial em homenagem a cultura local. Estabelecida através da Lei nº 1.367 , que cria o Dia Municipal da Cultura, devendo ser realiza em homenagem ao dia de Nascimento do Cineasta Conquistense Glauber Rocha. Dentro das comemorações, fica estabelecido a entrega da Medalha Mérito Cultura Glauber Rocha, onde uma personalidade e uma instituição cultural serão homenageadas. Esse os homenageados foram Maria Nazaré, conhecida como Yalorixá Naza de Oyá e o Sarau a estrada de Jeremias Macário, ambos indicados pelo Conselho Municipal de Cultura.
Apoio incondicional à cultura - O vereador Ricardo Babão (PCdoB), iniciou lembrando que a cidade sempre que está despontando como uma das 10 melhores para se viver em todo o país, e afirmou que “falar de cultura é importante, principalmente nessa casa que sempre vem tentando ajudar das melhores maneiras”. Ressaltou que não é fácil trabalhar sem recurso, sem apoio, mas destacou o trabalho que vem sendo feito pela secretaria de cultura do município. Lembrou da importância de se unir forças entre todos os poderes para que investimentos possam ser direcionados a cultura. Declarou seu apoio aos profissionais e representantes da cultura local afirmando que “nessa casa legislativa esta aqui, todo nós juntos, para apoiar no que for preciso.
Cultura transforma pessoas - O cantor Vítor Mariá cobrou maior atenção para a Cultura. “A cultura pode transformar a vida das pessoas, mudar a realidade. Nós precisamos oferecer arte, cultura como ferramenta de Educação e transformação da vida das pessoas”, argumentou Mariá. “Até quando nós vamos tratar a cultura como algo não-palpável?”, questionou ele.
Para o artista, a Cultura precisa ser valorizada e levada para a população como um todo. “A gente vem entendendo que a Cultura caminha por um lugar que não chega na população. A gente precisa começar a fazer agora para que lá na frente esse diálogo surja efeito. Transforme e eduque as pessoas ao ponto de nós não estarmos precisando lutar contra um mosquito”, defendeu Vítor Mariá.
Um olhar mais carinhoso para a cultura - O cantor e compositor Alex Alves Reis (Baducha), presidente do Conselho de Cultura Municipal, começa seu pronunciamento reivindicando um olhar mais carinhoso para a cultura. “Nós precisamos reformular algumas coisas que precisam ser colocadas em pauta. Uma delas é o desmembramento da Cultura, a gente sabe que Cultura, Esporte e Lazer se comungam, mas só o Esporte em si já demandaria um setor específico”, pontua Alex. O artista ainda pede que os vereadores estejam mais presentes nos eventos de cultura, “É importante que nós estejamos todos unidos para que consigamos avançar nessas pautas”, afirma. Alex finaliza falando que tem havido demandas no Conselho de Cultura, como a realização de reuniões híbridas para se aproximar mais da comunidade civil.
Desafios e Estratégias para aproximar os adolescentes da Cultura Popular - O Mestre de Cerimônia da Prefeitura de Vitória da Conquista, Célio Santos, destacou a necessidade de aproximar os adolescentes da cultura popular. “Esse tem sido um desafio cada vez mais relevante em um mundo saturado de entretenimento digital e distrações instantâneas. Enquanto a cultura popular continua a evoluir e se diversificar, muitos adolescentes podem se sentir desconectados ou alienados das formas mais tradicionais de expressão cultural”, afirmou Célio. Nesse contexto, relatou a experiência vivida com uma adolescente que foi discriminada na escola por tocar sanfona. “Eu tive a oportunidade de levar a essa garota o consolo, preservando sua autoestima cultural e isso surtiu efeito. Hoje é uma sanfoneira de relevância, que brilhou no Festival de Forró em Mucugê, onde foi tratada como celebridade”, relatou. Com o objetivo de valorizar a cultura local, estreitando os laços dos adolescentes com as gerações anteriores, Célio defende que a criação de espaços e eventos onde os adolescentes possam participar ativamente da produção e criação cultural.
Projeto Quintas de Maio - Vadinho Barreto destacou a realização do projeto Quintas de Maio, que segundo ele foi idealizado para dar visibilidade e fortalecer a cultura em Vitória da Conquista. Ele lembrou que o evento realizado anualmente com audiência pública nesta casa legislativa, com aval e participação de todos os vereadores, “são 21 anos do projeto Quintas de Maio, que já faz parte do calendário cultural do município”, disse, e anunciou parte da programação para as comemorações deste ano, uma Semana Cultural, com a participação de diversos artistas regionais.
Importância de Glauber Rocha - Alexandre Magno coordenador de Cultura, representante da prefeita Sheila Lemos, ressaltou a importância da cultura e principalmente de Glauber Rocha. “A gente tem um privilégio de ter tido como conterrâneo, nasceu aqui em Vitória da Conquista e até hoje, a casa de Glauber Rocha recebe visita de pessoas de outros países que vem conhecer aonde é a casa que nasceu o cineasta”, contou, lembrando da restauração da casa Glauber Rocha transformando essa casa no memorial: “Nossa prefeita Sheila tem buscado junto com o secretário Xangai recursos. Já foram a Brasília algumas vezes tentando recurso federal para que a gente possa restaurar essa casa e transformar ela no espaço cultural da nossa cidade”, concluiu.
Reconhecimento merecido - O vereador líder da Bancada de Oposição e representante da Câmara no Conselho Municipal de Cultura, Valdemir Dias (PT), destacou o trabalho realizado pelos indicados do Conselho Municipal de Cultura: a Yalorixá Naza de Oyá e o Sarau de Jeremias Macário. Quanto à líder religiosa, Mãe Naza, Valdemir parabenizou o trabalho realizado em várias frentes. “Grande trabalho de toda a sua equipe. Faz um trabalho maravilhoso em toda a cidade, atendendo a todo o município na parte cultural, na parte da saúde, de Educação. Prêmio mais que merecido”, disse Dias. A respeito da premiação dada também ao Sarau Jeremias Macário, Valdemir disse ser um reconhecimento importante. “Faz um trabalho maravilhoso na parte cultural. Mais do que merecido, já não era sem tempo esse reconhecimento desse seu trabalho, sua dedicação à Cultura de Vitória da Conquista”, concluiu.
Falta de recurso - O vereador Luiz Carlos Dudé (União Brasil), inicia sua fala perguntando “Onde estão as pessoas que participam efetivamente da cultura de Vitória da Conquisa?”, em referência às poucas pessoas presentes na Casa do Povo nessa Sessão Especial. O edil fala que em 2017 a Cultura tinha meio por cento do orçamento, o que ele considera “indecente e imoral”. “Nós trabalhamos para aumentar de meio para 1%, nós dobramos e sabíamos que ainda era pouco para a Cultura”, relembra Dudé. O parlamentar denuncia a falta de recurso, “A Cultura ela não avança”, reforça ele. Sobre a casa de Glauber Rocha, o edil pontua que há uma disputa pelo acervo do cineasta, solicitado pelo Governo do Estado. “O que custa fazer uma força tarefa, uma unificação de forças da federação do Governo do Estado e do município e colocar a casa para funcionar?”, questiona Dudé. O parlamentar finaliza seu pronunciamento falando que cuidar da cultura é “descer do palanque”, e pontua que é preciso uma união de forças para fazer a cultura acontecer. “Eu espero que a gente possa estar aqui no próximo ano com uma grande homenagem e com a medalha Glauber, mas com esse plenário cheio de gente”, conclui.
Qual é o plano de trabalho para Cultura? - O vereador Alexandre Xandó (PT) lamentou a falta de novidades nos debates que envolve as políticas públicas da Cultura em Vitória da Conquista. Nesse sentido, apresentou algumas reflexões voltadas a esse setor, carente de recursos financeiros. Uma dessas reflexões foi o desmembramento da Secretaria Municipal de Cultura, Turismo, Esporte e Lazer (SECTEL). “De que adianta separar uma secretaria sem orçamento? Quem bate à porta da SECTEL, escuta que não tem orçamento”, afirmou. O vereador ainda questionou se os recursos da Lei Paulo Gustavo já foram pagos. “Os resultados já foram divulgados desde fevereiro e até agora não foram pagos. O que justifica isso?”, pontuou Xandó. Ele ainda questionou qual é o plano de trabalho do Governo Municipal para utilização desse recurso. “Tem dinheiro para cultura chegando, mas quero saber qual é o plano de trabalho”, destacou. Falando sobre seu mandato, elencou ações de valorização da cultura local, como Festival Hip Hop, Festival do Bruno Barcelar, além do tombamento de Teatro Carlos Jeová e bibliotecas comunitárias.
Terreiro de Candomblé também é cultura - A Yalorixá Naza de Oyá, foi uma das homenageadas com a medalha mérito Cultural Glauber Rocha, falou da importância desse reconhecimento e de ações em combate a intolerância religiosa, assim como qualquer tipo de discriminação, citou a atuação dos Projetos Maria Nilza e casa de Oya, que oferecem serviços e apoio psicológico a diversas famílias, “a gente tem que ter esse espaço, e aproveito para convidar todos a conhecer o espaço Maria Nilza ao invés de criticar pois lá contamos com profissionais qualificados e todos são voluntários” disse, sobre os diversos serviços oferecidos na área social, da saúde, educação e tantas outras ações que beneficiam a comunidade, cumprindo um papel que é do poder público. Ela lembrou aos presentes, que o terreiro de candomblé também é instrumento de disseminação da cultura, e que o mundo precisa viver e pregar mais amor e menos discriminação, pois a partir desse entendimento todas as religiões e todos os povos viverão em harmonia. Naza também fez questão de se dirigir aos vereadores e a todas as esferas politicas para lembrar que o importante não é a bandeira partidária e sim as leis e projetos que beneficiem o povo e que melhore a qualidade de vida da população mais carente.
Mais investimentos pra cultura - Jeremias Macário, representando o Sarau a estrada de Jeremias Macário, agradeceu a homenagem, destacando as dificuldades enfrentadas pelo projeto e pela cultura local. Contou um pouco sobre o Sarau que surgiu há 13 anos em um encontro entre amigos. Jeremias lembrou que é preciso olhar mais para a cultura e pediu mais investimentos públicos. Por fim, a gradeceu a homenagem e reconhecimento por parte da Câmara e do Conselho.
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Publicado originalmente em 05/04/2024, em Câmara Municipal de Vitória da Conquista.
Publicado originalmente em 05/04/2024, em Câmara Municipal de Vitória da Conquista.
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Por Dirlêi A Bonfim*
Ao iniciar esse ensaio, quero citar um dos mais importantes Artistas do século XX, acerca da Arte e da Cultura... Para Pablo Picasso (1967), “Não devemos ter medo de inventar seja o que for... Tudo o que existe em nós existe também na natureza, pois fazemos parte dela, assim, a Arte e a Cultura, deve esculpir a nossa trilhar vida a fora”. Ainda discorre Picasso (1968), “...Não há, na arte, nem passado nem futuro. A arte que não estiver no presente jamais será arte, toda Arte, é atemporal e presente...”. Ou ainda, quando vai dizer, Vila-Lobos (1955), “... O pão é o alimento da matéria, enquanto a Música e as artes, são o alimento da Alma...”. “...Considero minhas obras como cartas que escrevi à posteridade, sem esperar resposta”. Arte e cultura são dois conceitos importantíssimos e alvos de inúmeras análises por parte de diferentes áreas do conhecimento humano. Arte e Cultura são fundamentos muito importantes no desenvolvimento intelectual e cognitivos do animal humano.Mas, mais do que isso, as ARTES em geral, se colocam como ferramentas humanas, para expressão de sentimentos e sensações e percebemos a manifestações artísticas acontecendo de diversas maneiras nas diversas culturas pelo planeta afora. Portanto, a importância da ARTE e da CULTURA, se confundem com a própria VIDA do ser humano, ao longo da história das civilizações. A palavra CULTURA é derivada de colere, do Latim, que significa “cuidar de”. A palavra arte é derivada de ars, do Latim, que significa “técnica”, “habilidade”. A cultura é comumente associada com diferentes tipos de artes, como a música, o teatro e a pintura. Existe um debate entre os especialistas a respeito do conceito de arte, ainda que considerada por muitos a noção de ARTE, como algo bastante abstrato. A arte e a cultura de Grécia e Roma antigas são conhecidas como cultura clássica.
A escultura grega, inicialmente, possuía uma simetria na disposição dos membros do corpo humano e tinha o intuito de ressaltar a beleza humana. A escultura romana, diferentemente da grega, primava pela valorização do realismo. O debate conceitual a respeito da definição de cultura é realizado por diversas áreas do conhecimento, como a antropologia, a história e as ciências sociais. Neste texto, nos norteamos a respeito do conceito de cultura por meio das definições realizadas pela antropologia, ciência que tem como objeto de estudo o homem e a humanidade. A definição realizada pela antropologia afirma que cultura é o conjunto que reúne todas as formas de conhecimento, todas as crenças e tipos de moral de um povo, na construção de identidades sociais, todas as leis, tradições e costumes que são manifestados por determinado grupo social. Contudo, o vocábulo Cultura é comumente associada também com a Arte, isto é, música, literatura, dança, escultura, pintura e teatro são consideradas demonstrações culturais. A palavra cultura pode também se referir ao grau de instrução de uma pessoa, pois, na comunicação popular, uma pessoa estudada é considerada uma pessoa “culta”.
A palavra arte tem origem do termo latino, ars, que significa técnica ou habilidade. Segundo Berger e Luckmann (1973), o homem é tanto um ser da natureza como da sociedade. Coexistem permanentemente animalidade e socialidade, numa relação dialética. Essa condição humana se manifesta em cada indivíduo. Ao considerar a complexidade de uma conceituação de cultura, podemos apenas levantar aspectos importantes na construção desse conceito em relação ao referencial de identidade. Sendo assim, no conceito de cultura deve ser considerado que na distinção entre os mundos da natureza, homem e sociedade. Ao falar das ARTES, consideramos ainda, que a Arte é uma forma como o homem expressa os seus sentimentos, pensamentos e convicções. Além disso, pode ser entendida como o resultado de uma habilidade que resulta em uma obra com valor estético utilizada como expressão de alguma ideia, sentimento ou propósito. Na visão contemporânea, podem ser classificados como formas de ARTE : a Escultura, a Pintura, a Fotografia, a Música, o Teatro, o Cinema, a Literatura, a Mímica, a Dança, o Artesanato, etc...
A cultura brasileira, tem sido alvo de diferentes ataques nos últimos anos, que passam por atos de censura e controle ideológico, como se deu, num processo de aparelhamento do estado, dentro de uma visão antidemocrática do exercício e do fazer cultural. Muitas vezes ligados a cortes orçamentários de produções artísticas e culturais; mas, não apenas, como nas reestruturações e desmontes institucionais, (as avessas), marcados pela redução e a limitação na participação da sociedade civil (Artistas de diversas áreas) em decisões públicas; interferências político-institucionais, perseguições de cunho meramente ideológico, até a extinção do MinC (Ministério da Cultura). Já as reestruturações institucionais foram marcadas por uma tentativa de desmonte da máquina pública no setor cultural, iniciadas a partir da extinção do Ministério da Cultura e sua transformação em Secretaria vinculada ao Ministério do Turismo. Temos uma triste lembrança desse período, basta dizer, que chegamos a ter um representante do governo passado, na Secretaria Especial da Cultura, o Senhor Roberto Alvim (nazista), que fez alusões ao Joseph Goebbels, ministro de propaganda da Alemanha nazista de (Hitler), Goebbels, assim como o ex-secretário (Alvim), defensores de “ideologias totalitárias e genocidas”.
Nesse novo momento, estamos apreensivos e ao mesmo tempo esperançosos com a proposta do atual governo federal para a pasta da Cultura, na medida em que o MinC, (Ministério da Cultura), foi reconstituído ou recriado, com várias propostas inclusive, algo tão previsível e real, de que a CULTURA, é fato gerador de emprego e renda e tem um percentual bastante representativo, sobre o PIB (Produto Interno Bruto) da Economia da Cultura e Indústrias Criativas (ECIC) no Brasil. O novo indicador aponta que o segmento respondeu por 3,11% das riquezas geradas no país em 2020, o que equivale a R$ 230,14 bilhões dos R$ 7,4 trilhões movimentados pela economia no período. Segundo os dados do relatório final do gabinete de transição (12/2022), houve uma perda de 85% no orçamento da administração direta para a cultura desde (2016/2022), e de 38% no da administração indireta. O Fundo Nacional de Cultura (FNC), principal mecanismo de financiamento governamental do setor, teve seu orçamento reduzido em 95% nesse período, representando uma tragédia imensurável para toda a classe artística do país, claro tudo isso, ainda mais potencializado com os efeitos da Pandemia da Covid, quando o Setor Artístico Cultural, foi o primeiro a paralisar as atividades e o último a voltar para a cena cultural/artística, assim, às diversas áreas do chamado show business brasileiro.
Esse período de pandemia que atravessamos e ainda vivemos de certa maneira nos deu ao menos uma grande certeza: a arte, a cultura e o entretenimento nos ajudaram a atravessar os momentos mais difíceis do “isolamento social”, ao mesmo tempo, mostrou e reforçou a importância da arte na vida das pessoas...Trazendo a reflexão para a nossa aldeia Vitória da Conquista, como está o processo cultural, a quantas anda a discussão sobre as Artes e a Cultura na nossa Cidade...? A velha e contemporânea discussão sobre Políticas Culturais para as diversas áreas da Cultura...? Temos Políticas Públicas...? Ou, tratamos as Artes e a Cultura da Cidade, com desdém e sem importância...? E como se fossem/pudessem ser restritas e reduzidas a apenas dois eventos por ano...? A saber: o Natal na Praça e o São João...? Será isso Política Pública para as Artes e a Cultura...? Vamos além, mas afinal, como estão sendo conduzidos os nossos equipamentos públicos...? Tais como, Teatro Carlos Jeovah, ou mesmo o Cine Madrigal, Espaços importantes e imprescindíveis para a Cidade, mas, especialmente, para a classe Artística da Cidade, que carece de ampliação de Espaços, para a apresentação dos Espetáculos Musicais, de Teatro, Dança, Artes Plásticas, etc, etc... Em especial do Teatro Carlos Jeovah, tenho tantas boas lembranças, mesmo antes do surgimento do MAC – Movimento Artístico e Cultural de Vitória da Conquista, que foi fundado no Ano de 1986, na Escadaria daquele Teatro... Quanta coisa importante que lá acontecera...
Uma outra pergunta, a gestão pública, tem um registro da memória daquele Espaço Cultural...? Assim como do Cine Madrigal...? Que providências estão sendo tomadas, para a reforma ou reconstrução desses espaços...? Bem como, sobre as Conferências e os Seminários de Cultura, espaços democráticos, para a discussão livre aberta e fundamental para buscar reunir a classe artística e Cultural, das diversas áreas e pensar a Cultura da cidade de forma ampla geral e irrestrita...? É no mínimo, muito estranho e limitativo, governos que não se colocam publicamente para às grandes discussões e debates sobre os diversos temas que envolvem a sociedade, mas, neste caso, os Grandes Temas que envolvem as Artes e a Cultura do Município. É válido ressaltar, que temos diversas associações e instituições artísticas e culturais na Cidade, tais como: ACL – Academia Conquistense de Letras, a Casa da Cultura, o MAC – Movimento Artístico e Cultural de Vitória da Conquista, entre tantas, que precisam serem ouvidas, que tem muitas sugestões/propostas e contribuições, para as diversas secretarias municipais, em especial, Cultura e Educação, no entanto, essas instituições não são ouvidas, ou convidadas a participar do debate e da construção dos temas, das pautas relacionadas à Cultura. Será que a visão prevalente, é a mais acertada...? Sem ouvir todos os atores da Cena Cultural da Cidade...? Será que a Cultura se restringe à realização de Festas/Eventos, a cada seis meses...? E o processo cultural permanente, itinerante, a formação de Artistas, de público e plateia, como fica tudo isso...?
Temos pela frente, as discussões sobre os usos, benefícios, Projetos e Prestação de Contas, das Leis Aldir Blanc e Paulo Gustavo, e claro, será necessário que o município, promova as Conferências e Seminários Culturais, até porque, são pré-requisitos necessários à orientação e execução das Leis citadas. As leis Paulo Gustavo (Lei Complementar 195/2022) e Aldir Blanc-2 (Lei 14.399/2022) serão temas centrais do seminário “Novos Caminhos para as Artes e a Cultura”, do município do estado e do país. Costumo dizer que a pasta da Cultura, do ponto de vista do orçamento dos municípios, estado e união, sempre foi considerada o “patinho feio da história” pois nunca tem recursos. Recordo-me perfeitamente da luta incessante do ex-Ministro da Cultura, Gilberto Passos Gil Moreira, lutando para aumentar 0% (percentual) e a participação da pasta da Cultura no orçamento geral da união e assim se procede nos estados e municípios. Talvez, uma razão simples que se coloca é que “cultura” não traz “votos”, como se pudesse classificar a importância de cada uma das pastas nos governos pela participação percentual dos votos obtidos. Cultura é essencial, não dá para pensar a sociedade humana sem as manifestações artísticas e culturais. Cultura, Educação e Arte.!!!
Nesse instante de reconstrução nacional... Na verdade o que os Artistas querem é bem simples, claro e singelo: “O que a gente quer é dignidade, a gente não está pedindo nada demais, a gente quer dignidade para continuar o nosso exercício, o nosso trabalho, que é de levar a arte e a cultura para as pessoas”, em condições lícitas, éticas, decentes e democráticas. Vai questionar e poetizar Arnaldo Antunes Titãs (1987), na letra de Comida, “...Você tem sede de quê? (De quê?) Você tem fome de quê? A gente não quer só comida... A gente quer comida, diversão e arte...A gente não quer só comida, A gente quer a vida como a vida quer...”
* Contribuição do Professor DsC. Dirlêi A Bonfim, Doutor em Desenvolvimento Econômico e Ambiental, Professor da SEC/BA**Sociologia** Plano de Formação Continuada Territorial – IAT/SEC/BA.07/2023.1**
A princípio, já sei, antecipadamente, que não serei apenas criticado, mesmo porque discordar faz parte da natureza humana e do debate democrático aberto a todos. Entretanto, muitos irão soltar impropérios e flechas venenosas com conotações depreciativas contra minha pessoa, do tipo rancoroso, imbecil, provocador e frustrado.
Com minha idade avançada, já não me importo mais com as pedradas. Sou cidadão conquistense vivendo aqui há quase 27 anos. Procurei durante este tempo estudar as origens e a história desta terra, bem como, observar a prepotência vaidosa intelectual de muitos que se consideram donos da cultura e que se portam como deuses intocáveis. Existe muita presunção na cabeça de muita gente.
O resultado disso é que tudo que se faz, ou se estar por fazer aqui em torno da cultura, tem que girar ao redor desses sacerdotes ilustres que comandam os rituais litúrgicos. Sem o aval deles, qualquer expressão ou trabalho artístico não consegue se sobressair e alcançar maior divulgação interna e externa. Para abrir passagem e ser prestigiado tem que pedir a benção deles.
Antes de adentrar na questão concernente ao título de cunho opinativo, permitam-me uma pausa para uma observação. No último dia 21 (terça-feira), na Livraria Nobel, quando do lançamento da obra “A Guerra das Coronelas Sá Lourença e Isabelinha no Sertão da Ressaca – Vitória da Conquista”, do autor José Walter Pires, fiquei sem entender o porquê da secretária da Cultura não ter sido convidada a fazer parte da mesa das celebridades. Foi uma gafe, ou foi coisa proposital, premeditada? Afinal de contas, ela estava ali presente prestigiando um evento da sua pasta, representando toda a cultura do município. Eu só queria entender!
Bem, voltando ao nosso tema provocativo e polêmico, a par de duas universidades, uma estadual e outra federal, de várias faculdades particulares de ensinos presenciais e à distância, a cultura de Vitória da Conquista não tem um projeto consolidado de realizações. Sem verbas próprias e uma diretriz traçada, vivemos de atividades pontuais soltas no espaço. A sensação é que muita coisa acontece sem um calendário programático. O que foi realizado num ano pode deixar de ser no outro.
O setor privado, ainda com sua mentalidade provinciana, dificilmente investe na cultura e no esporte porque acha que não compensa. Quando dá alguma coisa faz como forma de ajuda, esquecendo que o doador também está sendo beneficiado com a divulgação da sua imagem perante o público. Isso acontece, por exemplo, com o futebol da cidade. Quando o time está vencendo aparece alguma ajuda, mas se perde, não tem apoio. O atleta sofre para conseguir um patrocínio e desenvolver seu trabalho.
Com nosso complexo de superioridade (tem muita gente que não se considera nordestino) ainda nos alimentamos da fama de fora de que Vitória da Conquista é uma cidade cultural de alto nível, talvez por conta de um passado efervescente e por nomes como Elomar, Glauber Rocha, Camilo de Jesus Lima (Caetité) e tantos outros, Com todas suas ambiguidades, arrogâncias, pedantismos, prós e contras, cada um com seu grande valor artístico de reconhecimento nacional e internacional, ainda um dia vou me atrever a falar aqui dos titãs da nossa cultura (Elomar e Glauber).
Pela sua grandiosidade, Conquista poderia ter uma atividade cultural intensa, bem mais diversificada e rica, só deixando a dever com a da capital. Não é isso que temos. Não por falta de talentos, mas pela ausência de um plano piloto que contemple a todos, sem as amarras e sem precisar do amém dos donos da cultura.
Com todo esse potencial, maior parte inativa e refugiada em seu canto produtivo, não dá para compreender e aceitar como um Centro de Cultura fica fechado durante quatro anos por causa de uma obra de reforma sob a responsabilidade do Governo do Estado. Não é a cara da acomodação da classe artística local? Cadê o nível cultural? As expressões, as linguagens estão esfaceladas?
A nossa cultura está acéfala, ou o maior mal é o individualismo de cada categoria que se fecha em seu casulo? Ficamos com medo, subjugados e esperando pela reação dos donos? O certo é que a cultura não pode se resumir em pontuais eventos festivos, e nem um ponto importante das manifestações populares e acadêmicas ficar de portas fechadas por quatro anos. É um total absurdo e falta de pressão das lideranças políticas da comunidade!
Aqui, no nosso caso particular, cada segmento das artes (música, literatura, teatro, artes plásticas e outras expressões) se fecha em sua panelinha individual, ao invés de todos se juntarem em defesa de uma causa maior. Cada um tem em mente sua própria preocupação de sobrevivência e procura armar sua teia de críticas com fins destrutivos.
Glauber Rocha, com todos seus defeitos, glorificou o nome de Conquista no passado. Elomar vive no seu universo superior com seus concertos elitizados para poucos, bem longe das agruras dos simples mortais criadores artísticos dependentes do parecer dos donos da cultura. Sem uma provocação conjunta de todos nós, o setor só padece.
Como dizia o cancioneiro baiano Raul Seixas, que rasgava o tecido da alma com suas verdades, “O sonho que se sonha junto, torna-se realidade”. Não podemos ser como aquele filho medíocre que vive à custa do sucesso do pai. O poder público e seus representantes têm que estar abertos à crítica, com humildade, para combater o individualismo e a arrogância, dando a Conquista o seu merecido lugar de cidade cultural que foi no passado na política e na vida social.
É só mirarmos as décadas de 50 e 60 quando Conquista era vista como um centro de ideias revolucionárias que irradiavam para todo resto da Bahia e do Brasil! Tanto isso foi verdade que os generais militares do golpe de 1964 mandaram para cá suas tropas a fim de reprimir e prender as cabeças que iam de encontro às forças reacionárias. Naquela época, Conquista deu um basta aos coronéis do poder.
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Postado originalmente em 24/12/2017, no Blog do Paulo Nunes.
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Nota do MM: esta postagem se destina exclusivamente à documentação histórica e não representa a opinião editorial do Memória Musical do Sudoeste da Bahia.












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