Por Gilmar Dantas*
Vou contar para vocês o principal motivo de as festas de São João ficarem mais caras, e ninguém fala sobre isso. Engana-se quem acha que é simplesmente o caixa 2, o aumento dos custos ou a ganância. Embora tudo isso de fato exista (não sejamos hipócritas).
O principal motivo é que, no atual modelo de contratação pública, não existe a diminuição de cachês que existe no mercado privado.
No mercado privado, é normal um artista estourar e seu cachê ir para o teto. Foi assim com o rock brasileiro nos anos 1980, com toda a cena do axé baiano e do pagode romântico nos anos 1990, e com o sertanejo nos anos 2000. Isso porque os cachês se baseavam principalmente em um princípio clássico chamado lei da oferta e da procura. Só que, passado o hype, o preço do cachê do artista volta ao normal. Não tem jeito. Sempre foi assim. E o artista mais longevo é aquele que aproveita esse hype para criar repertório, base de fãs e estrutura para manter um preço de cachê razoável a longo prazo. Mas não será o teto.
Já no atual modelo de contratações públicas, baseado em três notas fiscais de shows anteriores, o teto passa a funcionar como preço mínimo nas negociações (loucura, hein?).
Se o artista não fizer mais nada que justifique uma alta demanda, ele sempre terá as três notas fiscais do seu auge para gerar outras notas de igual ou maior valor e seguir mantendo seu teto, mesmo em seu pior momento.
Tomemos o caso de Devinho Novaes. Quando explodiu nacionalmente, era natural que seus cachês atingissem valores muito superiores aos praticados anteriormente. O problema é que, no modelo atual de contratações públicas, os valores praticados durante aquele auge tendem a se transformar em referência permanente, dificultando que os cachês retornem aos patamares compatíveis com a demanda de outros momentos da carreira. Em 2024, ele fez 42 shows no período junino para prefeituras baianas a um custo de R$ 150 mil cada show. Hoje, seu cachê simplesmente dobrou de preço.
Assim, o São João da Bahia, ou qualquer festa baseada em contratações públicas, torna-se um festival de artistas com milhares de cachês em seu limite máximo, como se todos estivessem no auge (no São João da Bahia do ano passado, foram 4.191 artistas contratados).
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Gilmar Dantas é técnico em assuntos culturais da prefeitura municipal de Vitória da Conquista. Mestrando em Cultura, Educação e e Linguagem (UESB) e Pós-graduando em Gestão Cultural (UFRB). Produz festivais de música desde 2003.


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