Músicos e bandas

Artigos

Notícias

Notícias

Shows

Shows

Artigos

Artigos

Alegrementes Cantano: Ternos de reis de Vitória da Conquista - Série Cultura Conquistense 01 (2004)



Em 2004 a Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista lançou o selo Série Cultura Conquistense, com o objetivo de fomentar e preservar a musicalidade local. O primeiro lançamento da série foi o CD Alegrementes Cantano - Ternos de Reis de Vitória da Conquista, valiosíssimo registro da música folclórica da nossa zona rural, infelizmente já desconhecida por boa parte da população urbana. 

Com patrocínio da Petrobras e direção musical do maestro João Omar, foi gravado "ao vivo" no Teatro Glauber Rocha (UESB). O encarte, com 28 páginas, traz um texto do professor Ruy medeiros e do próprio João Omar, bem como todas as letras e informações sobres os ternos de reis. Com tiragem de apenas 1000 unidades, esteve disponível em alguns locais da cidade, numa época em que o CD começava a perder espaço para o MP3. Não houve reedição, o que hoje o torna raro. 

Felizmente, tivemos acesso a uma cópia, que foi digitalizada para continuar o trabalho de preservação e circulação. Confira, abaixo, informações presentes no encarte:


TERNO DE REIS

Ruy Medeiros - advogado, pesquisador e professor universitário

Ternos de Reis estão presentes há muitos anos em Vitória da Conquista. Trata-se de uma tradição europeia que fincou raízes no Brasil. Já em seu Compêndio Narrativo do Peregrino da América, por volta de 1720, Nuno Marques Pereira documenta a existência do festejo grupo de homens, numa vila, de porta em porta, cantando reis, acompanhados de instrumentos musicais.

Espalhado pelo Brasil afora, também chega a Vitória da Conquista. Tem seu florescimento aqui sobretudo nos anos 20 a 50 do século passado, embora antes já aqui estivessem.

Durante vários anos, os ternos de Reis eram acompanhados de pastorinhas, cujo número variava, podendo ser superior a 30 ou mais, com roupas coloridas, entoando cantigas religiosas ou não.

Depois, os Ternos de Reis tornaram-se mais simples, nas vilas, povoados e na cidade de Vitória da Conquista.

E não são poucos os Ternos de Reis. Dentre outros, podem ser citados: Brasil Vencedor, Cruzeiro do Sul, Estrela Dalva, Flores de Boa Nova, Reis de Campo Formoso, Reis de Iguá, Divino Espírito Santo, Deus Seja Louvado, Os Três Reis Magos e Deus Segue Nossa Guia, estes quatro aqui representados.

Os Ternos de Reis fecham as comemorações do Natal, celebrando a caminhada e a visita dos Reis Magos aos recém-nascido Jesus Cristo. Embora as cantigas que entoavam geralmente apresentem semelhanças, há variantes. Apesar da simplificação verificada nos últimos 50 anos, os ternos desenvolvem suas atividades como há séculos: um grupo de homens e mulheres, cantando, e tocando instrumentos musicais, andando pelas ruas e visitando casas.

A primeira parte consiste na passeata, entoando cantiga, acompanhada de tambores, pandeiro, caixas, flautas e matraca, alusiva à viagem dos Reis Magos e ao nascimento de Jesus Cristo. A segunda parte é o cântico à porta da casa visitada (que deve estar fechada até o fim do canto do pedido de visita). A terceira parte é a visita ao presépio (lapinha) ou à imagem de Jesus Menino e, feito o canto em homenagem a esse, segue-se a parte final com a "brincadeira" em que algumas quadras são cantadas em ritmo de samba de roda, com acompanhamento de instrumentos musicais, e exibição coreográfica, e bebida (licor, de preferência) é servida aos reiseiros.

Os Ternos de Reis sobrevivem no Planalto da Conquista e podem ser encontrados dos dias 25 de dezembro a 6 de janeiro de cada ano. A Prefeitura Municipal tem incentivado apresentação a um público maior, por vários ternos, durante festejos natalinos em Vitória da Conquista. Vale a pena vê-los em sua indumentária típica e em sua alegria contagiante.


A COREOGRAFIA SONORA DOS TERNOS DE REIS EM VITÓRIA DA CONQUISTA

João Omar de Carvalho Mello - compositor e regente graduado pela UFBA e mestre em regência orquestral

Nos reisados da região sudoeste da Bahia, vamos encontrar um vasto material rítmico e melódico que apresenta, à sua maneira, um modo de utilização dos instrumentos e dos maneirismos típicos dos cantos folclóricos em geral. Para apresentar estas características, é necessário fazer um comentário sobre os elementos musicais que fazem parte deste contexto.

Entre os elementos que compõem o quadro fundamental do conceito de música na tradição ocidental (ritmo, melodia e harmonia), segundo vários estudos especializados, o ritmo seria, hipoteticamente, o elemento musical mais primitivo. Nesse sentido, o ritmo é perceptível de maneira mais imediata, enquanto a melodia encontra-se num nível um pouco mais complexo, como uma "derivação" do ritmo (frequência que equivale à quantidade de oscilações por minuto), no qual se combinam durações e parâmetros de "altura". Já para a harmonia, de conceito vasto, cabe a organização simultânea desses elementos.

A música folclórica realiza todo esse complexo sem que haja uma separação de seus componentes, ainda que cada instrumento realize sua performance específica. As maneiras de execução refletem o vigor, a energia e a introspecção com que os participantes mergulham, enquanto vivenciam os seus cantos. Geralmente os reisêros não separam a música da ritualística que se desenvolve em torno dela. As gravações aqui apresentadas são um exemplo disso: os participantes tinham a sua lógica de apresentação começando sempre pelo canto de santo reis, seguido pelos sambas, concluindo com o canto de retirada, que estava definida pela ordem ritual própria da tradição e não pelas vicissitudes técnicas das gravações.

Os instrumentos utilizados pelos diferentes grupos comportam uma formação básica que consiste no canto a duas vozes (quase sempre em terças paralelas), no pandeiro, no bumbo ou, às vezes, zabumba, nas caixas (primeira e segunda) e nos pífanos (sempre em par). Em alguns momentos, vamos encontrar também sanfona, violão, viola, além de grupos que se utilizam de um número maior de pandeiros, triângulo, querrequexé, etc.

Os acompanhamentos dos cantos mantêm um formato no qual tanto a percussão, que é predominante, quanto as melodias dos pífanos, seguem um padrão típico. O bumbo emite os sons graves com timbre denso, especialmente quando feito de couro. Ele ajuda na acentuação básica do compasso e, em alguns momentos, desenvolve uma série de improvisações rítmicas (acompanhadas por algum tipo de movimento corporal) combinadas com as caixas. As caixas, por sua vez, compõem os timbres médios, mantendo um "diálogo" entre si. Enquanto uma segue com a célula rítmica básica, a outra desenvolve uma série de acentuações em contratempo. Tanto as caixas quanto o bumbo utilizam esporadicamente um toque com a baqueta na borda do instrumento, sempre de maneira muito apropriada e cadenciada.

Os pandeiros, junto com triângulos e querrequexé, compõem os timbres agudos deste conjunto de percussão e, junto com as caixas, formam a "esteira sonora" de volume reduzido que acompanha o canto. Esta "esteira" às vezes é composta por triângulo, pandeiros e caixas, que mudam o toque, reduzindo a força (em alguns casos, como os das caixas, usando o toque na borda do instrumento), contribuindo para um equilíbrio sonoro no qual o canto se faz entendido.

Os pífanos ou gaitas, como são chamados pelos membros dos ternos, geralmente são os que realizam a "puxada", que faz a chamada dos cantos. Anunciam por alto a melodia principal e ficam em pausa, enquanto o canto é entoado. Logo em seguida, eles respondem com variações da melodia. Entre o primeiro e o segundo pífano se estabelece uma relação intervalar predominante de terças paralelas. Em alguns momentos devido não somente à limitação da extensão do instrumento como também à compreensão melódica do executante surgem outros intervalos de passagem, que chegam a realizar cruzamentos de vozes, ostinatos em um instrumento, enquanto o outro se movimenta, etc.

Um aspecto, que aparece tanto nos pífanos (devido à sua estrutura física), quanto em certos momentos dos cantos, é o emprego intuitivo de microtons. Estes microtons (monesis e triesis) ressaltam a expressividade das melodias. Eles também refletem aspectos do modalismo nordestino, pois tendem a alterar, comumente no sétimo e quarto graus, a escala modal jônica (modo mais comum na tradição ocidental), dando um singular colorido a vários aspectos da melodia entoada. Nos pífanos, muitas são as notas que dificilmente poderiam ser grafadas em linguagem musical, pois ficam indefinidas as alturas, ainda que seja clara a sua expressividade. As variações melódicas realizadas pelos pífanos superam, através dos floreios, as limitações naturais da escala do instrumento.

A compreensão técnica dos elementos apontados nesta introdução não é essencial para a apreciação da riqueza sonora aqui apresentada. O que importa é que estes personagens, agentes históricos de nossas tradições, realizam os cantos com grande habilidade e musicalidade. Se para os compositores, poetas e estudiosos do assunto a informação se faz imprescindível, para o ouvinte o que interessa é a plena fruição da arte do nosso povo e a sensibilidade de reconhecer esses grandes artistas "anônimos".


FAIXAS

1) Vinheta: Passo Preto - Terno de Reis Deus Seja Louvado
2) Samba - Terno de Reis Divino Espírito Santo
3) Reis da Lapinha (Alegrementes Cantano) - Terno de Reis Deus Seja Louvado
4) A Maré Encheu - Terno de Reis Coração de Jesus
5) Preá Corredeira - Terno de Reis Os Três Reis Magos
6) Samba Vira Mão - Terno de Reis Três Reis Magos
7) Reis do Divino Espírito Santo - Terno de Reis Divino Espírito Santo
8) Vinheta: Moça Bonita - Terno de Reis Deus Segue Nossa Guia
9) Passo Preto - Terno de Reis Deus Seja Louvado
10) Mariquinha - Terno de Reis Os Três Reis Magos
11) É Hora de Viajar - Terno de Reis Os Três Reis Magos
12) Hora da Viagem - Terno de Reis Deus Segue Nossa Guia
13) Viva Maria no Céu - Terno de Reis Três Reis Magos
14) O Galo Cantou - Terno de Reis Divino Espírito Santo
15) Preá Corredeira 2 - Terno de Reis Santo Reis
16) Moça Bonita - Terno de Reis Deus Segue Nossa Guia
17) Samba - Terno de Reis Deus e as Águas, Terra, Mar e Céu
18) Viva Janeiro - Terno de Reis Deus Seja Louvado
19) Contra-Dança - Terno de Reis Três Reis Magos
20) Samba de Despedida - Terno de Reis Deus e as Águas, Terra, Mar e Céu
21) Despedida do Santo Reis - Terno de Reis Divino Espírito Santo


TERNOS DE REIS

Deus Seja Louvado - Povoado de Dantelândia. Mestre: Dermevaldo Sales
Deus Segue Nossa Guia - Bairro Panorama. Mestre: Irênio Lima
Três Reis Magos - Povoado Rancho Alegre, Distrito de Iguá. Mestre: Clemente Francisco da Silva (Seu Lezinho)
Três Reis Magos - Povoado Baixado Cedro, Distrito de José Gonçalves. Mestre: Joaquim Ribeiro de Oliveira
Deus e as Águas, Terra, Mar e Céu - Bairro Alto Maron. Mestre; Agapito Pereira da Silva
Coração de Jesus - Bairro Cidade Modelo. Mestre: Anelita Matos dos Santos
Terno de Santo Reis - Fazenda Volta Grande. Mestre: Otacílio de Jesus Santos
Três Reis Magos - Fazenda Gameleira. Mestre: Francisco Fernandes (Tançá)
Divino Espírito Santo - Povoado de Baixão. Mestre: Maria Rosália dos Santos


FICHA TÉCNICA

Realização: Prefeitura Municipal de Vitória da Conquista
Patrocínio: Petrobras
Direção Musical: Maestro João Omar de Carvalho Mello
Produção Executiva: Paulo Cézar Lisboa, Ricardo Santos Marques, Chico Luz, Sônia Leite
Assistente de Produção: Mércia Carvalho, Corita Andrade
Estúdio: Zero db Studio
Técnico de gravação, Mixagem e Masterização: Chico Luz
Técnico de Som: Beda
Transcrição das Letras: Solange Paixa
Revisão de Texto: Elomar Figueira Mello, Ana Isabel Rocha Macedo
Capa / Encarte / Projeto Gráfico: Beto Veroneze
Ilustração: Sílvio Jessé
Fotografias: Jocélio Ferreira




I. Malforea

O "Memória Musical do Sudoeste da Bahia" é um projeto que precisa da sua colaboração. Tem algum material guardado? Gostaria de publicar seu próprio texto aqui? Entre em contato através do "fale conosco".

Nenhum comentário:

Leave a Reply

Twitter

Novidades em seu Email