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Ronaldo do Sax, um amigo-irmão que partiu

Por Fábio Sena

Ronaldo Silva, ou Ronaldo do Sax – para nós, amigos próximos, apenas Ronaldinho – era uma interrogação ambulante. Era um sujeito que perguntava o tempo todo. Que buscava coerência nas coisas. “Venha cá, velho, esse cara é doido, é?”. Era a senha para iniciar uma sessão filosófica que, dependendo dele, vararia horas e até dias. Ele simplesmente não admitia a não-resposta, ou o silêncio como resposta. Mergulhava, ora na leitura, ora na solidão, para interpretar a vida, para conhecê-la, sempre na esperança de tê-la entre os dedos, de dominá-la. Intenso, ele irradiava vida.

Como Belchior, tinha um coração selvagem e uma terrível pressa de viver. Com seu som e sua fúria, Ronaldo sempre deixou de lado a certeza e arriscava-se em tudo de novo, com paixão. Às vezes, ele simplesmente desaparecia. Quando íamos saber, estava tocando com a orquestra de Fred Dantas, em Salvador. Ou estava em Pernambuco, ou no Maranhão. Ou em São Paulo. Guiado sempre pela paixão ao instrumento, pela música, única razão de sua existência, sabemos todos nós que o conhecemos.

Na adolescência, passávamos tardes inteiras em sua casa, no bairro Patagônia, ouvindo e discutindo música. Seu quarto era uma espécie de caverna acústica, um esconderijo, lugar de fuga. Foi Ronaldinho quem me apresentou e me presenteou com Raw Magic, obra-prima do bluesman Magic Slim, vinil que depois circulou nas mãos de Maurício, Alberto, Dernival, Ronaldo e que virou trilha sonora em centenas de nossas aventuras. Exímio leitor de partitura e dono de um privilegiado ouvido, Ronaldinho gastava horas explicando os acordes, as entradas, as harmonias. Eu não entendia nada.

Provavelmente eu passaria a vida sabendo de Sinead O’Connor apenas de seus sucessos populares, como Nothing Compares 2 You. Então, Ronaldinho me apresenta ‎Am I Not Your Girl? e pergunta, com aquela gargalhada que lhe era típica: “Diz aí, sacana, quem tá cantando nesse disco?”. Demorou muito até que eu pudesse associar aquele jazz todo a Sinead O’Connor. Outra obra que passou a integrar em definitivo nossa trilha sonora. Seguramente, um dos melhores álbuns de jazz da história da música. Devo isso a ele.

Muitos tiveram o prazer de ouvir Ronaldo tocando saxofone. E ele era um craque. Mas poucos puderam curti-lo na intimidade da guitarra, para mim, seu instrumento predileto. Ronaldinho tinha a leveza dos melhores jazzistas. Pousava a mão sobre as cordas da guitarra e deixava-se, livre, ver a música fluir. Solava e fazia acordes desconcertantes. Tratava-me sempre como se eu tivesse qualquer noção do que ele fazia ou falava. Eu apenas gostava de ouvir a música. Não entendia nada. “Ó, sacana, esse acorde aqui é fogo pra fazer…” e destinava seu tempo a falar sobre a composição daquele acorde, o som…

Também era exímio violonista. Tinha seu próprio estilo. Demorava-se horas me ensinando algumas dissonantes. Ouvido privilegiado, tirava as canções de ouvido. Às revistinhas de música cifrada compradas nas bancas, ele tinha desprezo. “Isso aí tudo errado, Fabinho. Onde é que esse cara achou esse acorde aqui?”. Junto com Maurício, meu irmão, fazia verdadeiras misérias musicais. Ambos ao violão. Ou com violão e baixo. Ou com baixo e guitarra. Musicalmente, se entendiam perfeitamente. Quando cansava, tirava um monumental cochilo na rede.

Foram quase trinta anos de convívio. E devo muito a Ronaldinho. Muito mesmo. Foi ele quem, de forma direta, me jogou no mundo do jornalismo. Em 1998, ele trabalhava como cabelereiro com Zenon (com quem ‘inda hoje corto cabelo), no salão que, à época, ficava ali em frente ao Mercado das Flores, na Laudiceia Gusmão. E era costume almoçarmos juntos em minha casa, para tocar violão e conversar sobre música. Minha família tinha uma padaria e não havia, em meu horizonte, qualquer pensamento sobre trabalho naquela área.

“Ô, Fabinho, você que gosta aí desse negócio de cultura, de literatura, tem um cabra precisando de um repórter pro jornal dele. Ele corta cabelo comigo. Você não quer ver com ele, não?”. Insistiu tanto que fui ao salão, onde encontrei Gildásio Amorim Fernandes, editor do semanário O Município, com quem marquei imediatamente uma conversa na redação do jornal, iniciando assim meus escritos. Estar no mundo jornalístico, para mim uma espécie de missão existencial, é dívida que jamais pagarei a Ronaldinho.

Depois de um certo tempo, nos vimos cada vez menos. Mas sempre que ele vinha a Conquista nos encontrávamos. Fui sempre alguém com quem ele se abriu totalmente. Falava de sua vida sem nenhuma cerimônia. Das alegrias e tristezas, das dificuldades financeiras, dos amores, das paixões – e eram sempre paixões intensas, inteiras, nunca pela metade. Hoje ele partiu e me parece não haver razão para entristecer-me. À memória me vem sempre a imagem de alguém que se derramou inteiro na vida. No curto tempo que esteve por aqui, jamais tergiversou com a existência. Teve com a vida conversas francas e deu-se a ela de forma plena.

Ronaldinho era um amigo-irmão, uma luz. Um sujeito para quem a música era uma missão. Certamente, no outro plano, para o qual migrou, voltou a ser acorde, solfejo ou clave. Se voltou a ser música, certamente é uma belíssima peça de jazz. Para celebrar sua partida, deixo aos amigos Take Five, de Dave Brubeck, que ele tanto admirava e que foi trilha de tantas conversas nossas.



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Publicado originalmente em 20/07/2020, em Blog do Fabio Sena.

I. Malförea

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